Existe uma categoria de desenho que envelhece melhor do que deveria, e As aventuras de Jackie Chan é uma dessas obras que ainda conseguem provocar aquela sensação incrível de imersão. Quando lembro da animação, não penso apenas em um desenho baseado na imagem de um astro das artes marciais, porque havia muito mais acontecendo ali. E funcionava. As aventuras de Jackie Chan tinha personalidade própria, conseguia criar ameaças diferentes e ainda encontrava espaço para fazer uma criança rir enquanto apresentava criaturas sobrenaturais e artefatos mágicos.
Meu caro Ornitorrinco, aquilo era televisão infantil com uma quantidade perigosamente grande de imaginação.

O grande mérito de As aventuras de Jackie Chan era entender que aventura precisava significar alguma coisa. Não bastava colocar Jackie em uma luta diferente toda semana; era necessário criar uma mitologia que desse ao público motivos para esperar pelo próximo episódio. Os doze talismãs da primeira temporada são o melhor exemplo disso, porque cada um possuía um poder próprio e estava relacionado a um animal do zodíaco chinês. A busca pelos talismãs transformava cada episódio em uma espécie de caça ao tesouro sobrenatural, com locais diferentes, inimigos diferentes e novas possibilidades.
De repente, descobrir qual seria o próximo talismã era tão divertido quanto descobrir qual inimigo apareceria. As aventuras de Jackie Chan fazia o espectador querer continuar acompanhando.

E não era apenas uma coleção de poderes jogados aleatoriamente, porque a trama sabia construir a sensação de que existia um mundo muito maior escondido atrás daquela aventura. Demônios, espíritos, máscaras, feiticeiros, artefatos antigos e diferentes tradições mitológicas apareciam ao longo da série, criando a impressão de que o universo possuía regras próprias. Era justamente essa liberdade que tornava cada temporada interessante. Você nunca tinha certeza se o próximo problema seria uma perseguição, uma relíquia amaldiçoada, uma criatura sobrenatural ou alguma maluquice criada por Jade.
E falando em Jade, seria impossível discutir As aventuras de Jackie Chan sem reconhecer o quanto os personagens secundários ajudavam a carregar a série. Jade não era apenas a sobrinha que acompanhava Jackie; ela era impulsiva, curiosa, teimosa e frequentemente responsável por transformar uma missão controlada em um desastre internacional. O Tio era outra peça fundamental, principalmente porque sua relação com Jackie produzia alguns dos melhores momentos de humor.

Tohru, por sua vez, começava como inimigo e acabava se tornando um dos personagens mais queridos, justamente porque sua transformação permitia explorar um lado mais gentil e engraçado. As aventuras de Jackie Chan sabia que um protagonista sozinho não sustenta uma aventura durante muito tempo.
Também existia Capitão Black, responsável pela Seção 13, organização que ajudava a conectar as aventuras sobrenaturais com uma estrutura quase de espionagem. Essa mistura era ótima porque permitia que a história mudasse de escala sem perder sua identidade. Em um episódio, Jackie podia estar investigando uma relíquia antiga; no seguinte, poderia estar fugindo de monstros enquanto Jade fazia alguma coisa completamente irresponsável. Meu caro Ornitorrinco, isso é o que eu chamo de elenco funcional: cada personagem tinha uma função narrativa, mas também personalidade suficiente para sobreviver fora dela.

O desenho entendia perfeitamente que estava usando a imagem de Jackie Chan e aproveitava isso para criar combates baseados em movimento, improviso e objetos do cenário. Jackie não precisava simplesmente trocar golpes com o adversário; ele podia usar uma cadeira, uma escada, uma caixa, uma porta ou qualquer objeto disponível para escapar de uma situação complicada. Essa característica remetia diretamente ao tipo de ação associado aos filmes do ator, mas funcionava muito bem dentro da animação. As aventuras de Jackie Chan conseguia transformar uma luta em espetáculo e comédia ao mesmo tempo.
E é justamente aí que o humor da série merece destaque, porque As aventuras de Jackie Chan nunca pareceu ter vergonha de ser engraçada. Jackie frequentemente estava mais preocupado em sobreviver do que em parecer heroico, Jade tinha aquela energia de criança que acredita ser muito mais competente do que realmente é, e Tio conseguia transformar praticamente qualquer situação em uma oportunidade para reclamar de Jackie. Até Tohru ganhou espaço para demonstrar seu lado mais absurdo depois de abandonar a Mão Negra. O humor não era um intervalo da aventura; fazia parte dela.

Outra qualidade de As aventuras de Jackie Chan era a capacidade de fazer cada temporada parecer uma nova porta sendo aberta. Isso mantinha a curiosidade viva. O espectador já sabia que Jackie, Jade e companhia enfrentariam algum problema, mas não sabia exatamente qual seria a natureza desse problema. As aventuras de Jackie Chan não precisava reinventar completamente sua estrutura para parecer nova; bastava trocar a ameaça, expandir a mitologia e colocar aqueles personagens em situações suficientemente malucas para que a aventura continuasse funcionando.
No Brasil, essa memória fica ainda mais forte por causa da TV Globinho. As aventuras de Jackie Chan fez parte de uma programação que marcou uma geração e ajudou a transformar manhãs diante da televisão em uma espécie de ritual. Havia uma expectativa específica em acordar, ligar a televisão e descobrir o que estava passando naquele dia. A extinta TV Globinho reuniu desenhos que ficaram gravados na memória de muita gente, e As aventuras de Jackie Chan tinha exatamente o tipo de aventura que combinava com aquele horário. Era simples, mas nunca parecia vazio.

Talvez seja por isso que a animação tenha permanecido tão querida para quem cresceu assistindo à animação. Não era simplesmente nostalgia de uma época em que a televisão tinha determinada programação; havia qualidade real por trás daquela lembrança. A série sabia criar expectativa, sabia apresentar vilões, sabia construir regras para sua magia e sabia fazer os personagens interagirem de maneira divertida. Meu caro Ornitorrinco, nostalgia pode até colocar um filtro bonito sobre nossas lembranças, mas nem ela consegue inventar boas cenas de luta, personagens carismáticos e uma mitologia que realmente funciona.
E talvez o maior elogio que eu possa fazer a animação seja justamente lembrar da sensação de esperar por um episódio novo. Hoje temos acesso imediato a temporadas inteiras no app gratuito da Pluto TV, e podemos assistir a vários capítulos seguidos e descobrir rapidamente o que acontece.

Enfim, essa animação tinha identidade, ritmo e coragem para experimentar. Jackie era carismático, Jade era impossível de ignorar, Tio era uma máquina de frases memoráveis e Tohru provava que até um antigo vilão podia conquistar o público. Talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, eu ainda olhe para a animação e pense que aquele desenho sabia uma coisa que muitas produções esquecem: aventura boa é aquela que faz você querer descobrir o que existe atrás da próxima porta.
Talvez seja por isso que ela continue especial: nunca tratou o público infantil como incapaz de apreciar uma história bem contada. Era uma aventura que respeitava a inteligência das crianças, mas também sabia oferecer camadas suficientes para que adultos e adolescentes encontrassem motivos próprios para continuar assistindo, rindo e esperando pela próxima confusão sem perceber o tempo.

E esse foi “Aquele Desabafo”.
Te vejo no próximo post.
~ Cidadão Quem ~
Dá uma olhada nisso aqui: Adoro Naruto! Odeio os Fillers!


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