Sombra e Ossos | Eu abracei uma série cancelada!

Sombra e Ossos | Eu abracei uma série cancelada!
Das páginas para a tela, 1ª Temporada de Sombra e Ossos reprisa a jornada da Escolhida. Mas antes de falarmos da série, eu preciso registrar aqui a minha indignação:

Eu cansei de mentir para mim mesmo! Inúmeras vezes, enquanto passeava pelo catálogo da Netflix, lá estavam elas: as séries canceladas. Sabemos que não são poucas, e dói muito tocar nesse assunto; desculpa! Se é doloroso para um telespectador ver a série que está acompanhando ser extinta, você já parou pra pensar que é igualmente doloroso ver uma série boa ser ignorada para O Todo & Sempre? Foi por isso que ontem uma história (CANCELADA) chamou minha atenção por conta de sua proposta de fantasia. Ela me chamou. Eu ouvi. E eu aceitei o convite.

Assim como no cinema, o meio literário também abraça as Trilogias. Composta por três livros, a jornada fantástica escrita pela autora israelita Leigh Bardugo, iniciada no volume chamado Sombra e Ossos, chegou ao catálogo da Netflix integrando o time de tramas que exploram a Alta Fantasia. Nessa 1ª temporada, fragmentada em oito episódios, o “showrunner” Eric Heisserer atua ao lado do diretor Lee Toland Krieger. Apesar da confusão inicial com uma narrativa repleta de termos desconhecidos, a dupla merece aplausos por manter “vivo”, do começo ao fim, o interesse do público.

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Sombra e Ossos (1ª temporada) / Netflix

É preciso resgatar uma figura importante presente nas adaptações de obras literárias. Frodo Bolseiro, Harry Potter, Tris e tantos outros personagens nascidos em calhamaços de fantasia/distopia detêm o título de Escolhido(a). Aos ouvidos de muitos, esse “manto” que recai sobre o protagonista soa clichê, o que não é um problema quando a trama sabe disso e usa o poder da narrativa para fugir do que está batido. Na série da Netflix, a escolhida se chama Alina Starkov, vivida pela carismática Jessie Mei Li. Detentora de suas próprias qualidades [e defeitos], a personagem desvia do previsível e carrega o enredo sem jamais perder a chama de guerreira em ascensão.

Se liga na Sinopse: A história acontece no Reino de Ravka, que, há milênios, se encontra dividido em dois por uma tenebrosa barreira. Nesse mundo não muito diferente da Rússia imperial, vive Alina Starkov, uma órfã que foi recrutada pelo Primeiro Exército do czar para acompanhar os Grishas, figuras mágicas responsáveis por combater as forças malignas. Para vencer a guerra contra o mal e unir seu país, a jovem vai aprender a controlar seus poderes e a confiar em si mesma.

Sombra e Ossos | Eu abracei uma série cancelada!
Sombra e Ossos (1ª temporada) / Netflix

De antemão, o público, acostumado a traçar linhas de semelhança, enxergará em Sombra e Ossos uma aura à la Game Of Thrones. O motivo? A ambientação medieval regida por diferentes núcleos e a presença forte da monarquia. Mas essas comparações param aí, porque a trama da Netflix abraça mais a fantasia, usando-a como elemento primordial para decidir o futuro de personagens e ambientes nessa 1ª temporada.

Tais elementos fantásticos são como uma cola, conectando todas as frentes em um ponto em comum: a guerra entre a luz e as trevas. Inicialmente, essa é a sensação, mas a narrativa não se agarra ao maniqueísmo e logo investe na existência de personagens que representam a fusão entre a escuridão e a luminescência. Afinal, bem e mal são conceitos desconstruídos aqui, pois a máscara de herói e vilão é usada por todos.

Enquanto observamos um conjunto de personagens reagir e agir conforme suas vontades, a balança moral se equilibra. E isso vai além da relação direta entre Série e Telespectador, pois esse vínculo também acontece entre coadjuvantes e protagonistas.

Sombra e Ossos | Eu abracei uma série cancelada!
Sombra e Ossos (1ª temporada) / Netflix

Percebe-se a vitória do idealizador Eric Heisserer na janela aberta por ele, oferecendo uma ampla visão à cultura dessa sociedade ficcional. Absorvendo as principais temáticas abordadas no livro, o showrunner demonstra cuidado na hora de construir personagens. Para ele, coadjuvante ou não, todos merecem um cantinho sob os holofotes da história. Às vezes, alguns ganham mais luz que outros, infelizmente, mas o resultado ainda é positivo.

Nessa equação fantasiosa, há números negativos e eles podem tornar a experiência arrastada, vide os episódios quatro, cinco e seis, que deixam o ritmo mais lento. Se a imersão tiver pegado você, isso não será problema, todavia esse amortecimento pode espantar a freguesia, pois a sensação passada, mesmo que ligeira, é de um enredo que fica correndo atrás do próprio rabo, deixando o público tonto e desinteressado. Talvez dois ou três episódios a menos teriam amenizado esse déficit.

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Sombra e Ossos (1ª temporada) / Netflix

Outro ponto desfavorável é a existência do “triângulo amoroso”, termo que gera expressões azedas no público em potencial. Parece um mal das fantasias nascidas de 2008 para cá, que (quase) sempre inserem protagonistas no meio de dois interesses amorosos. Entretanto, até nesse quesito, a série se sai bem, pois o que poderia ser outro clichê é tratado com ousadia, firmando uma reviravolta que engrandece as figuras.

Assim como seus primos distantes (Harry Potter e O Senhor dos Anéis), Sombra e Ossos segue a linha das “portas abertas”, concluindo a 1ª temporada com lacunas que deveriam ser preenchidas nos vindouros ciclos. A vantagem é que a adaptação da Netflix, por ter mais “tempo em tela”, consegue espaço para explorar com calma as tradições e mitologias daquele mundo.

Sombra e Ossos é uma passagem direta para o mundo composto por reinos, guerreiros e conflitos de raças. Usando a discussão acerca do preconceito entre povos para firmar sua proposta.

Infelizmente, o show acabou caindo no mesmo buraco de outras adaptações que não conseguiram alcançar o status de bem-sucedida. Pensei que essa maldição fosse restrita ao cenário do cinema, não é à toa que adaptações cinematográficas da última década se perderam no caminho, “engavetadas”: 16 Luas, Fallen e Divergente (que sobreviveu por mais tempo, mas morreu no penúltimo filme); no entanto, o streaming também é capaz de prender histórias no limbo do cancelamento.

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Sombra e Ossos (1ª temporada) / Netflix

Metamorfosear as páginas de um livro em uma série talvez seja a nova fórmula que os produtores encontraram de ser fiel ao material original e respeitar os fãs. Nem toda saga literária se dá bem no cinema como Harry Potter, basta olhar para o filme de A Bússola de Ouro, que fracassou, mas renasceu nas mãos da HBO com uma série que caminhou com sucesso rumo a sua conclusão. O mesmo vale para Percy Jackson, que tentou se consolidar com dois longas, mas naufragou no mar das adaptações fílmicas e agora ganhou uma segunda chance no Disney+.

Nos próximos anos, acredito que muitos livros sairão das prateleiras e ganharão espaço nos  streamings. Uma pena Sombra e Ossos ter morrido antes de uma conclusão. Pretendo ver a segunda temporada, logo, logo. Só preciso me aceitar que o desfecho existirá (por enquanto) apenas nas páginas dos livros.

Em suma, Sombra e Ossos incorpora a faceta de série promessa, uma fantasia moderna que abraça a diversidade e se arrisca ao quebrar clichês. Que venham mais temporadas!

Dá uma espiada no trailer:

Falando em série, que tal conhecer essa AQUI.

By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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