O Som do Silêncio | Quando o “Design de Som” cria imersão

O Som do Silêncio | Quando o "Design de Som" cria imersão
No cinema, o silêncio foi de extrema importância para inúmeros gêneros, passando pelo drama, terror e ação. Um Lugar Silencioso, Moonlight: Sob a Luz do Luar e O Babadook são títulos que abraçaram a quietude como elemento fundamental para narrar o filme. E então chegamos nele, o ganhador de dois Oscars, O Som do Silêncio (Sound of Metal, no inglês), que entrou para a lista de longas que transformaram o Silêncio em um dos personagens principais.

Ah, meu caro Ornitorrinco… Sabemos que muitos fãs do Cinema apaixonaram-se por filmes devido ao efeito positivo causado por algum diálogo ou monólogo. Conversas são como uma janela. O público vai lá, abrindo-as para conhecer um personagem ou entrar de cabeça na ambientação. Quentin Tarantino, mestre em escrever diálogos, mostrou que as falas, bem arquitetadas no roteiro, são o gancho perfeito para desenvolver o contexto.

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O Som do Silêncio | Prime Video

Mas e quando acontece o contrário? E quando um filme não usa diálogos ou falas para construir uma trama? As respostas para tais perguntas podem ser conferidas nos filmes citados. Inclusive, estão no cerne de O Som do Silêncio, disponível no catálogo do Prime Video.

Imagine o seguinte cenário. As baquetas são uma extensão do seu corpo, ou seja, você é um baterista e sua vida gira em torno da música. Ela é o seu sustento, seu sonho e sua válvula de escape. E, da noite para o dia, sua audição começa a se deteriorar, obrigando-o a abandonar uma parte de si. Lutar contra sua nova realidade ou aceitá-la de uma vez por todas? É um maldito beco sem saída, de fato.

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O Som do Silêncio | Prime Video

Porém, existe uma diferença importante entre simplesmente assistir a um personagem perder a audição e experimentar, ainda que por alguns minutos, como seria estar no lugar dele. O Som do Silêncio escolhe a segunda opção. O espectador não permanece protegido atrás da tela. Em determinados momentos, somos arrancados da confortável posição de observadores e colocados dentro da cabeça de Ruben. O som fica abafado, distorcido, distante. A música, que antes representava liberdade, transforma-se em uma lembrança quase dolorosa.

É uma escolha narrativa que funciona justamente porque não tenta explicar tudo. O filme não precisa colocar um personagem em cena dizendo “estou ficando surdo” para que compreendamos o tamanho do problema. Basta ouvir. Ou, melhor dizendo, basta deixar de ouvir. A ausência passa a comunicar mais do que qualquer discurso poderia fazer.

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O Som do Silêncio | Prime Video

E isso torna a experiência de Ruben ainda mais angustiante. Não estamos falando apenas sobre a perda de uma capacidade física, mas sobre a destruição de uma rotina inteira. O baterista não perde somente a audição. Ele perde a maneira como conhecia o próprio mundo. O palco, os instrumentos, os ruídos e até as conversas deixam de ocupar o mesmo espaço. É como se alguém tivesse pegado um pedaço da identidade dele e simplesmente apertado o botão de “mute”.

Ruben, então, entra em uma guerra contra algo que não pode derrotar com força bruta. Não há baqueta, bateria ou microfone capaz de resolver o problema. A insistência em recuperar aquilo que foi perdido transforma-se em um conflito interno ainda maior. Quanto mais ele tenta voltar a ser quem era, mais distante fica a possibilidade de aceitar quem está se tornando.

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O Som do Silêncio | Prime Video

Nesse aspecto, Riz Ahmed encontra um personagem que exige muito mais do que decorar falas. O ator utiliza o corpo, os olhos e principalmente as reações para comunicar aquilo que Ruben não consegue colocar em palavras. Há raiva, medo, desespero e negação convivendo no mesmo sujeito. É uma atuação que não precisa gritar para ser ouvida.

E talvez essa seja uma das maiores ironias de O Som do Silêncio: um filme sobre um baterista que consegue ser extremamente poderoso justamente quando retira a música de cena. O longa entende que som não significa apenas música. Um prato batendo, uma porta fechando, uma voz ao longe ou até o silêncio absoluto possuem pesos diferentes. Tudo depende de quem está ouvindo.

O Som do Silêncio | Quando o "Design de Som" cria imersão
O Som do Silêncio | Prime Video

A relação entre Ruben e o mundo também ganha outra dimensão quando ele percebe que aceitar sua nova realidade não significa necessariamente desistir. Existe uma diferença gigantesca entre abandonar aquilo que amamos e compreender que podemos continuar vivendo de outra maneira. O filme não oferece uma solução mágica, tampouco tenta embrulhar tudo em um final confortável. Ele prefere deixar a ferida aberta.

No fim das contas, O Som do Silêncio não é apenas sobre um homem que está perdendo a audição. É sobre alguém que precisa descobrir quem é quando aquilo que definia sua existência já não pode ser recuperado da mesma maneira. O som pode desaparecer, a música pode ficar distante e o mundo pode parecer estranho. Ainda assim, talvez exista algo que permaneça quando tudo fica em silêncio: nós mesmos.

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O Som do Silêncio | Prime Video

Esse dilema cai no colo de Ruben, interpretado com uma sinceridade visceral no olhar, em virtude do talento de Riz Ahmed, que teve sua primeira indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator por causa dessa empreitada aqui. 

Vale lembrar que em 2021 a Academia alterou as regras, unindo Edição de Som e Mixagem de Som em uma só categoria, criando uma nova nomenclatura: Melhor Som.

Mas, afinal de contas, o que é “Melhor Som”? Uma rápida pesquisa no Google me levou a uma explicação prática, feita pelo YouTuber Max Valarezo, no canal Entre Planos. Em um de seus vídeos, ele explica: “Se a Edição de Som determina ‘o que’ a gente vai ouvir, a Mixagem de Som determina ‘o como’ a gente vai ouvir”. Em síntese, é isso.

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O Som do Silêncio | Prime Video

Em suma, O Som do Silêncio é uma obra que explora os ruídos, a ausência de som e a interferência na qualidade sonora, tudo dentro de um pacote cujo objetivo é nos colocar na pele do personagem. O resultado é uma experiência inesquecível e realista. Todo o mérito ao diretor Darius Marder e aos profissionais Nicolas Becker (engenheiro de som) e Abraham Marder (compositor). 

Graças a eles, o Silêncio ganhou o protagonismo de forma totalmente inovadora.

O Som do Silêncio | Quando o "Design de Som" cria imersão
O Som do Silêncio | Prime Video
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O Som do Silêncio | Prime Video

E esse foi “Aquele Desabafo”.

Te vejo no próximo post.

~ Cidadão Quem ~

E, é claro, como de costume aqui está o trailer:

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By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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