Minari | Como assim uma Avó que xinga e não faz biscoitos?!

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O encontro de duas gerações sempre rende tramas sobre aprendizado e desconstrução de ideais. Simbolizado, durante anos, na figura do “Mestre” e do “Aluno”, tal relação foi explorada em diversos roteiros que mostraram o choque entre o mundo dos mais velhos e o mundo dos mais jovens. Essa premissa está no coração narrativo de Minari, no entanto, os personagens aqui são “avó” e “neto”.

Pois é, meu caro Ornitorrinco… Cá estou outra vez, falando sobre filmes antigos. Desculpa, essa é uma das minhas missões nesse site. E dessa vez, o filme [nem tão antigo assim] que escolhi me conquistou lá em 2020. Minari é o tipo de história que te faz sorrir com o canto da boca, te causa estranheza, te faz chorar e, num piscar de olhos, mergulha sua mente em cenas que ficam para sempre com você. Tudo isso sendo simples, singelo, quieto e um pouco engraçado!

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Minari / A24

Na literatura nacional há uma vovó com “cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz” que todos conhecem por residir em um famoso sítio. Dona Benta se tornou um referencial imagético para muitos: a avó carinhosa, gentil, conselheira e que sabe fazer os quitutes mais saborosos. Mas, vez ou outra, o cinema e a TV exploram outros perfis, desconstruindo o modelo da vovó perfeita. No filme A Proposta, comédia romântica de 2009, a atriz Betty White encarnou uma avó para lá de diferente; o vovô Rick, da série animada Rick e Morty, também desconstrói essa imagem.

Agora, em 2021, essa desconstrução tem nome e rosto: Soon-Ja. Conhecida como a “Vovó Desbocada” de Minari, a personagem ganhou vida nas mãos da veterana Yuh-Jung Youn. A artista sul-coreana é a grande aposta para arrematar a estatueta dourada como Melhor Atriz Coadjuvante. Sem papas na língua, a vovó Soon-Ja rouba a cena todas as vezes que surge em tela e, mesmo fugindo da representação de avó que muitos conhecem, ela traz algo em sua bagagem ao chegar na casa de sua família. Muito carinho.

Minari | Como assim uma Avó que xinga e não faz biscoitos?
Minari / A24

Se em uma ponta temos a avó desbocada, na outra está o neto com a mesma característica. O garoto, chamado David, diz: “Você nem é vovó de verdade. Pois elas fazem biscoitos. Elas não xingam!“. Para ele, a senhora que está dormindo em seu quarto e roncando todas as noites não corresponde às suas expectativas. Frustrado, ele trilha um caminho para entender que sua avó tem outras peculiaridades, como fazer piadas e zombar dos netos em um jogo de cartas.

O carisma que emana do personagem é fruto da direção cuidadosa que o cineasta Lee Isaac Chung teve com o ator mirim Alan S. Kim, explorando a verdade inocente do jovem. Não é à toa que o garotinho fez muitos chorarem e sorrirem quando foi premiado com o Critic’s Choice Awards. Veja:

Apesar de toda a temática acerca do “sonho americano” pela ótica de uma família coreana, Minari entrega o que tem de melhor nessa relação entre avó e neto. O choque entre a experiência e a inocência travessa gera momentos inesquecíveis. Uma hora você está sorrindo, depois gargalhando e, no fim, seus olhos estarão borrados pelas lágrimas. É uma relação tão sincera e pura que muitos terminaram o filme querendo adotar a avó desbocada! Ela, com toda a sua sabedoria incomum, aprende muito com o neto e vice-versa.

Vovó Soon-Ja pode não ser o modelo ideal de “mestre”, e tudo bem, afinal, seu neto não é um pupilo convencional. Mesmo com essa dinâmica incomum, eles encontram tempo para aprender um com o outro.

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Minari / A24

Mães são como nossas primeiras super-heroínas. Elas defendem, ensinam e motivam. Logo, a mãe da nossa mãe é tudo isso em dobro. Por mais que muita gente propague a frase “não existe nada melhor que almoço feito pela avó, em uma tarde de domingo“, nem todas as vovós são resumidas em tais palavras. Afinal, existem outras formas de demonstrar carinho. Minari está aí para provar isso.

Talvez a maior graça de Soon-Ja esteja justamente em não tentar agradar. Ela não chega à nova casa carregando uma cartilha sobre como ser uma boa avó. Chega sendo ela mesma. Dorme, ronca, xinga, provoca e até chama o neto por nomes que ele certamente não gostaria de ouvir. É uma presença que incomoda antes de conquistar espaço, e talvez seja justamente por isso que sua relação com David pareça tão verdadeira.

Minari | Como assim uma Avó que xinga e não faz biscoitos?
Minari / A24

David, por sua vez, enxerga o mundo com aquela lógica infantil que transforma pequenas diferenças em grandes problemas. Para ele, uma avó precisa fazer biscoitos, ser delicada e cheirar como uma avó deveria cheirar. Soon-ja quebra todas essas regras imaginárias. E, conforme o garoto abandona essa visão limitada, começa a perceber que carinho não possui um único formato. Algumas pessoas abraçam; outras provocam. Algumas cozinham; outras ensinam a jogar cartas. Há quem diga “eu te amo” e há quem demonstre isso permanecendo por perto.

É nesse ponto que a relação entre os dois ultrapassa a simples dinâmica entre avó e neto. Soon-ja carrega consigo uma experiência de vida que David ainda não possui, enquanto o garoto apresenta uma espontaneidade que a própria avó talvez já tenha deixado para trás. Um oferece aquilo que falta ao outro. Não existe um professor sentado diante de um aluno. Existem duas pessoas em lados diferentes da vida, descobrindo que ainda têm muito a aprender.

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Minari / A24

E talvez seja essa a grande beleza de Minari. Enquanto o filme apresenta uma família tentando construir uma vida em um lugar distante de suas raízes, também mostra que algumas coisas não precisam ser reconstruídas. O afeto pode mudar de idioma, atravessar gerações e até sobreviver às diferenças culturais. David não precisa transformar Soon-ja na avó que imaginou. Ele só precisa descobrir quem ela realmente é.

No fim, a “Vovó Desbocada” deixa de ser apenas uma personagem engraçada que rouba algumas cenas. Ela se transforma em uma lembrança de que pessoas não cabem em definições prontas. Avós não precisam ser Dona Benta, assim como netos não precisam ser pupilos obedientes. Basta existir espaço para que ambos se conheçam. E, quando isso acontece, até um garoto que odiava ter uma avó que não fazia biscoitos pode descobrir que recebeu algo muito melhor: uma avó que, do jeito mais torto e bonito possível, aprendeu a amá-lo.

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Minari / A24

E esse foi “Aquele Desabafo”.

Te vejo no próximo post.

~ Cidadão Quem ~

Se você tem coração [eu espero que tenha], te convido a apertar o play nesse trailer 😉:

Chega mais e confira ESSE DESABAFO sobre Rua do Medo.

By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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