Concebido, inicialmente, como um projeto fílmico que ganharia vida sob a direção do saudoso Heath Ledger, a minissérie O Gambito da Rainha percorreu uma extensa jornada até ganhar a bênção da Netflix. Apresentando a vida de uma enxadrista excepcional, chamada Beth Harmon, o enredo aprofunda-se no âmago de uma personagem que transita entre o perfeccionismo, o brilhantismo e os vícios.
Constantemente chamando a atenção dos clientes, a aba mais cobiçada dentro do catálogo da Netflix — o “Top 10” — tem abrigado novidades de grande qualidade, assim como produções atemporais. Entrar no rol pode, a princípio, parecer mais fácil para as estreias; no entanto, manter-se no ranking é uma façanha que poucos conseguem. Lá em 2020, o serviço de streaming contemplou seus assinantes com a minissérie O Gambito da Rainha. O resultado foi a permanência do show no Top 10, mesmo após semanas de seu lançamento. Pode-se atribuir esse sucesso aos figurinos impecáveis, ao roteiro afiado, à montagem dinâmica e, sobretudo, às atuações.
Sinopse O Gambito da Rainha:
A minissérie conta a história de Beth Harmon, uma menina órfã que se revela um prodígio do xadrez. Mas agora, aos 22 anos, ela precisa enfrentar seu vício para conseguir se tornar a maior jogadora do mundo. E quanto mais Beth aprimora suas habilidades no tabuleiro, mais a ideia de uma fuga lhe parece tentadora.

Não! Você não aprenderá xadrez assistindo a O Gambito da Rainha, tampouco táticas especiais sobre esse jogo milenar. É louvável ver que o roteiro não cai na armadilha de apelar para o didatismo exacerbado — existem jargões pronunciados aqui e ali, de fato, mas nada que soe expositivo. É a ausência de grandes explicações que desperta a curiosidade do público em compreender detalhes cruciais referentes aos métodos do xadrez. Desse vazio explicativo surge o encanto, porque cada partida, retratada com singularidade, transmite enorme tensão para nós, deixando-nos apreensivos a cada movimento de peça sobre o tabuleiro.
É pelas mãos hábeis de Beth Harmon que o mundo de mosaico se revela a cada capítulo. A humanização da personagem vai muito além das partidas jogadas no porão do orfanato, enquanto é criança, e dos campeonatos regionais que ela disputa, indo da adolescência para a fase adulta. Beth é uma campeã quando seu ringue é o tabuleiro, de fato, mas isso não acontece quando seu campo de batalha é a dura e implacável realidade, que, desde o começo, bate de frente com ela, taxando-a como uma “perdedora” — tanto no sentido pejorativo da palavra quanto pela ótica de alguém que se vê diante de muitas perdas, materiais ou imateriais. Uma contrastante vida de derrotas e vitórias.

Com trinta anos de idade, o texto de Allan Scott é gigante e maduro. Há três décadas, o roteirista buscava uma oportunidade de contar sua obra em Hollywood, mas foi pela força divina da Netflix que a história tomou forma. Scott escreveu diálogos ágeis que flertam com um humor crítico genuíno, passam por declarações íntimas de seus personagens, expondo fraquezas e sonhos, e chegam até um “subtexto” que constrói o tom realista da minissérie.
Quando a temática do machismo é abordada no ambiente no qual a história se passa, por exemplo, a mão do criador não apela para um discurso panfletário que visa demonizar personagens, a fim de criar “antagonistas prontos”. Muito pelo contrário, a sutileza de Allan Scott é vista na forma como ele trata cada rosto de sua história: com humanização. A bondade excessiva, a indiferença que nasce da frieza, o perfeccionismo e a competitividade são pilares que habitam o cerne de cada personagem, mostrando que falhas e virtudes podem, sim, ocupar o mesmo corpo, mente e alma. Afinal, o ser humano detém emoções e características multidimensionais.

É a partir dessa elaboração que o desenrolar da história nos brinda com personagens tão vivos. Até mesmo os coadjuvantes, que poderiam ficar à mercê da protagonista, recebem a devida atenção em uma construção precisa e verdadeira. Em especial, Marielle Heller (que interpreta Alma Wheatley, a mãe adotiva de Beth Harmon), conhecida por dirigir filmes como Um Lindo Dia na Vizinhança e Poderia Me Perdoar?, aqui, a veterana doa seu dom artístico em um inesquecível trabalho na frente das câmeras.
Moses Ingram, no papel de Jolene, tem uma presença de cena avassaladora. É incrível o que a atriz consegue fazer ao encarnar sua personagem em diferentes fases de sua vida, mostrando um desenvolvimento crescente. Já Harry Melling, famoso por infernizar a vida de Harry Potter como o primo Duda, tem cada vez mais se mostrado um ator versátil. Suas cenas em O Diabo de Cada Dia ainda não saíram da minha mente e, em O Gambito da Rainha, sua participação é tão marcante quanto a do filme citado, com mais tempo de tela, é claro.

Em 2015, quando o cineasta Robert Eggers, diretor do longa A Bruxa, presenteou Anya Taylor-Joy com uma personagem repleta de camadas e significados, a atriz, na época com apenas 19 anos, entregou-se ao papel. Ali, nasceu uma das performances mais elogiadas no Cinema de Terror das últimas décadas.
Tamanha exaltação não é exagero, pois, um ano depois, Anya repetiu sua façanha, colocando no seu currículo uma atuação inesquecível através do filme Fragmentado. E finalmente chegamos a 2020, ano em que Taylor-Joy provou sua versatilidade no filme Emma, mas seu “xeque-mate” viria somente meses depois, em O Gambito da Rainha!

Neste recente projeto, a intérprete de Beth Harmon cresce como atriz, utilizando o olhar como tela para pintar todos os medos e desejos que explodem dentro de sua personagem. Se o “sentido da visão” serve como palco para Anya Taylor-Joy dar vida à sua protagonista, o silêncio amplifica esse talento, pois é na quietude que afloram as emoções mais intensas da jogadora de xadrez. Uma atuação contida, que se torna grandiosa pelos detalhes de uma interpretação banhada de naturalidade e, acima de tudo, verdadeira em cada segundo.
Não me causará espanto se a atriz for indicada por sua atuação ao Globo de Ouro, SAG Awards e Critics’ Choice Awards, tampouco surpresa se, porventura, ela arrematar os prêmios. Anya conquista um status admirável como atriz, pois, através de O Gambito da Rainha, ela assina seu nome no mural de artistas extraordinários desta geração.

A Direção de Arte, que salta aos nossos olhos quando estamos confinados dentro das salas, quartos e ambientes, cria uma harmonia palpável entre espaço, tempo e expressão emocional dos personagens. Vale reverenciar como o figurino, o cabelo e a maquiagem transportam nossa experiência para as décadas de 1950 e 1960. Cada tecido que compõe os trajes é como um lembrete vivo da época. Indo além, há uma vestimenta presente no último episódio que, simbolicamente, transforma a protagonista na “peça” da rainha do xadrez, através da cor e da forma das roupas. Momento este em que fica claro todo o cuidado desse setor para compor a relação entre imagem e aspecto psicológico dos personagens.
Quem também merece aplausos é o departamento responsável pela Montagem da minissérie. Tudo é feito com extremo cuidado, costurando tomadas contemplativas e momentos marcantes com esplendor — especialmente nos episódios 6 e 7, cuja organização das cenas entrega uma dinâmica calorosa e ritmada.

Moldando novas histórias que marcam território na nossa memória audiovisual, a Netflix entrega um hit primoroso, que emociona, fascina e conquista nossa curiosidade. Mediante uma narrativa astuta, eis uma história que magnetiza nosso deslumbre por esse universo quadriculado, composto por reis, rainhas, peões e cavalos.
Crescendo com o tempo e transformando-se em um chamariz, a minissérie é uma das obras dramáticas mais bem-sucedidas do streaming. Excelente em todos os quesitos, este é um dos poucos projetos que terá um longo tempo de vida na mente dos espectadores. Enfim, O Gambito da Rainha é uma jogada de mestre.
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