Assinante da Netflix possui um vício inerente: aventurar-se pelas abas do streaming, na ânsia de encontrar algo novo! Não é diferente com o público geek, que na época recebeu uma adição conhecida, indiretamente, pelo seu irmão mais velho. The Witcher: Lenda do Lobo (o irmão mais novo) estreou de forma tímida e ficou na sombra de outros lançamentos.
Com a promessa de conjugar dois verbos, “enriquecer” e “expandir” o universo estabelecido na série de 2019 estrelada por Henry Cavill, fiz esse texto para lembrar que essa história ainda respira em pleno 2026.

Escolha lucrativa para os produtores e benéfica para os fãs ávidos, muitas histórias burlaram o ponto final existente em filmes e séries. É impossível contabilizar o número de tramas que receberam continuações ou spin-offs em outras mídias. Star Wars, por exemplo, abocanhou outras fatias do mercado da Cultura Pop: games, livros, HQs, séries e animações. Sob a mesma vontade, ainda que em um passo mais curto, está a idealização da Netflix, ramificando o enredo iniciado na série do Geralt de Rivia através do filme animado The Witcher: Lenda do Lobo.
O alvo do roteirista é desenhado sem rodeios. A intenção é contextualizar uma realidade cruel, repleta de seres pensantes que agem conforme suas vontades, sem julgar o certo e o errado. No roteiro de Beau DeMayo há uma dança de conflitos — Drama e Ação — fantasiados, respectivamente, de “história de amor” e “perseguição a diferentes grupos sociais”. Deixando o live-action ao migrar para a animação, o filme direciona os holofotes para o novo personagem: Vesemir. Escravo do dinheiro, porém competente em suas funções, o Bruxo é conduzido por uma jornada de questionamentos. Aqui entra o debate: emoções pertencem exclusivamente aos seres humanos? Afinal, monstros também sentem algo?

Sobre The Witcher: Lenda do Lobo: Vesemir é um jovem bruxo convencido que caça criaturas por dinheiro. Um dia, ele se depara com um novo e misterioso poder que o força a enfrentar demônios do passado e acaba descobrindo que alguns trabalhos são mais importantes do que o dinheiro.
Antes do decorrer deste texto, é preciso dizer o óbvio. The Witcher: Lenda do Lobo não é para todos. Qualquer um pode apertar o play, de fato, mas o assinante que cair de paraquedas no filme, sem o menor conhecimento sobre esse mundo, deixará passar em branco elementos de suma importância. Apesar da trama independente, a narrativa do filme está de mãos dadas com a série. Portanto, aqueles que pularem o show não serão afetados pelo efeito das “reviravoltas”.

Olhando para o esqueleto do projeto, percebe-se, indiretamente, que, além de um prelúdio de luxo, a animação faz um gracioso aceno para os fãs, lembrando-os de que, em breve, estreará a segunda temporada de The Witcher. Apreciar as obras seguindo a ordem de lançamento é sinônimo de preparo, compreendendo, assim, elementos internos e externos à narrativa. Isso inclui termos, culturas, locais e personagens; inclusive o mais crucial: a linha do tempo.
Com o sabor de uma partida de “RPG de mesa”, o diretor Han Kwang Il segue uma receita pequena, fazendo mágica com apenas uma hora e meia de filme. Despido de imediatismos, nenhum acontecimento soa acelerado, ainda que, no final, permaneça a sensação de que a animação merecia mais tempo. Escorando-se em elipses e respeitando, assim, a inteligência do telespectador, Kwang Il constrói a jornada da caça e do caçador, colocando-os em constante movimento.

Dos monstros mais horripilantes aos bravos heróis, o diretor não deseja apelar para o maniqueísmo panfletário. Sua visão está na exploração dos dois lados da moeda, apostando, assim, em uma galeria de personagens dúbios, repletos de camadas e falhas. Isso se estende até às figuras que aparecem pouco em um filme que dura pouco, infelizmente!
The Witcher: Lenda do Lobo é a típica história cujo primeiro minuto conquista ou espanta a freguesia. Fica claro que a fantasia, aqui, é decorada pelo sangue, vísceras e outras partes de um corpo mutilado; (alô, Castlevania!). De antemão, a violência gráfica dita o tom e, a partir disso, o perigo iminente parasita, pouco a pouco, a narrativa. Somos cobertos pela seguinte certeza: a morte pode levar qualquer personagem, a qualquer momento.

Diálogos necessários e estratégicos concedem agilidade à trama, transformando a exposição de informações em um elo entre os personagens. Beau DeMayo, roteirista, encontra a brecha perfeita para intercalar discursos, conversas e monólogos. Detalhes ditos no primeiro e segundo atos ainda permanecem vivos no desfecho, amarrando tudo em uma cadeia de falas que sustenta os plot twists no último ato.
Nasce, assim, o personagem mais importante em The Witcher: Lenda do Lobo: o Drama.
Por mais que o vermelho-sangue impere através do desfile de mortes, o horror visual perde para o drama. Não que haja competição entre eles, mas são os momentos de pico emocional que concedem alma ao filme. Pelos olhos de diferentes criaturas, humanos e não humanos, a veia dramática cresce progressivamente, culminando em um ponto comum. Não é a morte, tampouco a vida; trata-se da distância entre uma e outra.

Magos, Bruxos, Guerreiros. São tantas classes diferentes que se esquece o que existe dentro deles. Fragilidade, compaixão, dor e arrependimentos. Até o ser mais horrendo tem coração, no fim das contas.
The Witcher: Lenda do Lobo, inevitavelmente, é um lembrete de algo maior que está por vir: a 2ª temporada de The Witcher. Nota-se isso na data de lançamento, poucos meses antes da estreia do novo ciclo da série live-action. Aqui está uma partida audiovisual de um RPG que se sustenta na emoção, na destruição de laços.
A empolgação regida pelo erguer das espadas ou pela conjuração de magia é inebriante, por isso as batalhas estão lá, majestosas. Todavia, a coroa deste filme pertence a um único soberano: o Sr. Drama.
Se liga no trailer:
Falando na Netflix, que tal conhecer Castlevania?

