Se tem algo que sempre hipnotiza os olhos dos votantes do Oscar são os filmes que retratam a rotina da própria indústria cinematográfica, como Mank — a obra mais “pessoal” do diretor David Fincher. Não é espanto para ninguém que o cinema adora falar sobre “Cinema”! Do terror ao drama, a metalinguagem perpetuou-se por diversos gêneros. Pânico 3, La La Land e o clássico Cantando na Chuva são alguns títulos que levantaram o velho debate: “a vida imita a arte ou a arte imita a vida?”.
Eis uma confissão. Já assisti Garota Exemplar cinco vezes. Clube da Luta eu perdi as contas! Semana passada revi O Quarto do Pânico, e, sempre que está passando O Curioso Caso de Benjamin Button, eu paraliso na frente da TV e me perco. Prefiro nem explanar o número de vezes que meus olhos assistiram A Rede Social.

O que todos esses filmes têm em comum? É um nome, e começa com a letra “D” de David Fincher. Um dos diretores mais consagrados dos últimos anos, ele é conhecido por suas narrativas profundas, capazes de roubar um turbilhão de sentimentos dos espectadores. Não é à toa que as críticas positivas cercam o trabalho do cineasta. E ele é merecedor de cada elogio.
Eu, como um grande fã, preciso engolir meu orgulho e admitir algo. Mank, infelizmente, é o filme menos “Fincher” da carreira de David Fincher (questão totalmente pessoal). No entanto, sua reverência à metalinguagem é um dos pontos altos desse filme.

Mas o que é a metalinguagem, de fato? Basicamente, é quando a linguagem usa a própria linguagem para falar de si mesma. Sabe os momentos em que o cartunista Mauricio de Sousa falou da criação de seus gibis dentro das tirinhas da Turma da Mônica? Ou quando Ryan Murphy retratou a produção de filmes e a corrida pelo Oscar na minissérie Hollywood? Ou o recente sucesso da Marvel, WandaVision, que usou a linguagem das séries dentro de uma série? Bom, todos são exemplos de metalinguagem!
Em termos simples, na maioria das vezes, a metalinguagem no cinema nada mais é que “um filme dentro do filme”, como Mank, de David Fincher.

Focado no processo de criação do roteiro de Cidadão Kane, lançado em 1941, a história narra eventos que aconteceram com o roteirista Herman J. Mankiewicz (Mank para os íntimos) e sua luta contra o diretor Orson Welles para ter seu nome nos créditos do filme. Entre verdade e ficção, o longa de Fincher se apega aos conceitos técnicos de filmagem e edição para construir sua narrativa, inclusive no uso de flashbacks, transições de cenas, diálogos e, é claro, na fotografia em preto e branco. É o atual reverenciando o clássico.
E talvez seja justamente aí que Mank encontre sua maior força. O filme não está apenas interessado em contar como um roteiro nasceu, mas em mostrar as pessoas, os conflitos e as vaidades que existem por trás de uma obra que posteriormente seria considerada histórica. Antes de virar clássico, Cidadão Kane também foi apenas uma ideia no papel. Antes de existir uma cena, existiu alguém imaginando como aquela cena deveria funcionar. O cinema, antes de ser imagem, também é palavra.

A escolha estética de David Fincher torna essa homenagem ainda mais curiosa. Ao abraçar o preto e branco, o diretor não está apenas reproduzindo uma aparência antiga. Existe uma tentativa de transportar o espectador para uma Hollywood que já não existe, fazendo com que Mank pareça ter escapado de outra época e, por algum acidente temporal, desembarcado na Netflix. É quase como assistir a um fantasma do cinema clássico contando sua própria história.
E há algo particularmente bonito na relação entre David e Jack Fincher. Durante anos, aquele roteiro permaneceu guardado, esperando uma oportunidade que não chegou pelas mãos do próprio autor. Décadas depois, o filho transforma as palavras do pai em imagens. O projeto deixa de ser apenas uma adaptação e passa a carregar uma camada emocional impossível de ignorar. Um pai escreveu sobre o nascimento de um filme; o filho transformou essa escrita em outro filme. Se isso não é legado, eu sinceramente não sei o que é.

Também existe uma provocação interessante escondida na história de Mankiewicz: afinal, quem merece ser lembrado quando uma obra cinematográfica se torna gigante? O diretor? O roteirista? Os atores? Os profissionais que trabalham atrás das câmeras? O cinema é uma arte coletiva, mas a memória popular costuma escolher alguns poucos nomes para colocar nos holofotes. Mank olha justamente para essa disputa e lembra que, antes de qualquer Oscar, existe uma quantidade absurda de pessoas tentando fazer uma história funcionar.
No fim, talvez seja impossível assistir a Mank sem pensar no próprio cinema como uma máquina de criar memórias. Filmes são feitos, lançados e, com o tempo, tornam-se referências. Alguns desaparecem; outros permanecem. Cidadão Kane permaneceu. Jack Fincher deixou seu roteiro. David Fincher encontrou nele uma história. E nós, espectadores, ganhamos mais um motivo para apertar o play e lembrar por que essa tal de 7ª arte continua nos hipnotizando.

Sobretudo, Mank é um “filme Legado”, visto que o script foi escrito por Jack Fincher (pai de David Fincher) na década de 90 e somente agora ganhou as telas. Ou seja, um roteirista escrevendo uma história sobre outro roteirista e sua jornada para conceber o roteiro de um filme. Metalinguagem maior que essa, não há!
Em suma, Fincher, filho, homenageou O Filme que se tornou um dos pilares da história do cinema, compartilhando com o mundo a herança deixada pelo seu pai.
O filme está disponível no catálogo da Netflix.
Confira o trailer de Mank:
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