Pequena Miss Sunshine | Sua família é uma Kombi quebrada?

Pequena Miss Sunshine - A vida é uma Kombi quebrada - 2
Existe algo profundamente bonito em uma família que não funciona direito e, justamente por isso, acaba funcionando. Pequena Miss Sunshine entende essa contradição com uma delicadeza rara, colocando seus personagens dentro de uma velha Kombi que parece estar a poucos quilômetros de pedir aposentadoria. Olho para aquela Kombi e penso que talvez ela seja uma das metáforas mais perfeitas do cinema: quebrada, barulhenta, improvisada e ainda assim capaz de levar todo mundo ao destino.

A família de Pequena Miss Sunshine está longe de ser aquela fotografia bonita colocada na parede para fingir que ninguém possui problemas. Richard vive obcecado pela ideia de sucesso, Sheryl tenta manter todos unidos, Dwayne carrega uma revolta silenciosa, Frank enfrenta uma crise pessoal, Edwin parece ter feito da inconveniência uma profissão e Olive apenas deseja participar de um concurso. São pessoas diferentes, com feridas diferentes, reunidas dentro de um espaço apertado.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

A Kombi funciona porque ninguém consegue chegar sozinho ao destino; em determinados momentos, alguém precisa empurrar o veículo, enquanto os outros correm para entrar novamente. E é justamente aí que a metáfora começa a ganhar força.

A Kombi quebrada representa uma família que também apresenta defeitos em praticamente todas as peças. O motor falha, a porta tem problemas, o veículo precisa ser empurrado e, mesmo assim, ninguém decide abandonar a viagem. Isso é importante porque Pequena Miss Sunshine não vende a ideia de que uma família forte é aquela que não possui problemas. Pelo contrário, a força daquela família nasce justamente da capacidade de continuar junta quando tudo parece dar errado. Eles brigam, discordam, se machucam e demonstram egoísmo, mas existe uma espécie de corda invisível mantendo todos ligados. Talvez família seja exatamente isso: pessoas imperfeitas tentando não deixar ninguém para trás.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

E essa é uma das coisas que mais me encantam no filme. Pequena Miss Sunshine não transforma seus personagens em modelos de virtude, porque nenhum deles merece uma estátua na praça. Richard pode ser irritante, Dwayne pode ser cruel em alguns momentos, Edwin é praticamente uma bomba-relógio ambulante e Frank está tentando reconstruir a própria vida. Mesmo assim, quando Olive precisa deles, todas aquelas diferenças começam a perder importância. O sonho dela passa a ser um sonho coletivo, ainda que ninguém tenha planejado isso. Meu caro Ornitorrinco, talvez seja esse o segredo: algumas famílias não se tornam fortes porque são perfeitas, mas porque descobrem que podem ser imperfeitas juntas.

O sonho de Olive também merece ser observado com cuidado, porque Pequena Miss Sunshine fala sobre acreditar em si mesmo sem transformar essa ideia em uma frase motivacional estampada em uma caneca. Olive quer vencer, quer participar, quer subir naquele palco e mostrar sua dança. Para ela, o concurso é enorme porque representa uma possibilidade de reconhecimento. A história, porém, gradualmente desmonta a noção de que vencer é o único resultado possível para alguém que possui um sonho. Quando o palco finalmente aparece, a pergunta deixa de ser “ela vai ganhar?” e passa a ser “ela terá coragem de ser quem é diante de todo mundo?”. E isso muda completamente o significado daquela viagem.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

Richard passa boa parte da história tentando ensinar que vencedores precisam pensar como vencedores, enquanto o restante da família demonstra, de maneiras diferentes, que a vida não respeita manuais. Pequena Miss Sunshine brinca com essa contradição de maneira inteligente, porque justamente o homem obcecado por sucesso precisa aprender que sua filha não precisa ser uma vencedora para merecer orgulho. O conceito de fracasso vai sendo desmontado diante dos nossos olhos. Dwayne descobre que seu futuro não pode depender de uma única ideia, Frank percebe que a derrota não encerra sua existência e Olive aprende que subir ao palco pode ser mais importante do que receber um troféu.

A Kombi, então, deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a representar a própria trajetória daquelas pessoas. Quando o veículo não consegue funcionar normalmente, todos precisam empurrá-lo para que ele pegue velocidade. É uma imagem simples, quase engraçada, mas carregada de significado. Ninguém consegue fazer aquilo sozinho, porque cada pessoa precisa correr, empurrar, entrar e repetir o processo. Pequena Miss Sunshine transforma uma dificuldade mecânica em uma representação visual do apoio familiar. Quando um integrante não consegue avançar, os outros precisam ajudar, mesmo que estejam cansados, irritados ou completamente perdidos sobre o que fazer.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

E talvez seja justamente por isso que as atuações sejam tão importantes. Greg Kinnear transforma Richard em um homem simultaneamente engraçado, frustrante e vulnerável, enquanto Toni Collette entrega a Sheryl uma humanidade que impede a personagem de virar apenas a mãe preocupada. Steve Carell surpreende como Frank, abandonando o registro cômico pelo qual ficou conhecido e construindo um homem fragilizado, contido e profundamente triste. Paul Dano faz de Dwayne uma presença silenciosa até quando está em cena, e Alan Arkin transforma Edwin em uma fonte de caos. No centro de tudo, Abigail Breslin faz Olive parecer absolutamente verdadeira.

É difícil falar de Pequena Miss Sunshine sem mencionar como esse elenco consegue equilibrar comédia e dor sem fazer nenhuma das duas parecer artificial. Alan Arkin, especialmente, possui um timing cômico maravilhoso, mas seu personagem também representa uma ideia importante: a vida não precisa ser levada como uma competição permanente. Edwin é velho, inconveniente e completamente inadequado para algumas situações, mas talvez seja justamente quem melhor compreende que viver significa experimentar as coisas enquanto ainda existe tempo. A atuação dá peso a essa filosofia sem transformá-la em sermão.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

O humor de Pequena Miss Sunshine também é essencial para que a mensagem nunca fique pesada demais. A Kombi quebrando, as discussões, os planos absurdos e as situações constrangedoras fazem a história respirar. O filme fala sobre fracasso, depressão, expectativas familiares e medo do futuro, mas não exige que o espectador permaneça sentado em silêncio diante de uma palestra sobre sofrimento. Ele ri das próprias tragédias, porque seus personagens fazem isso também. Meu caro Ornitorrinco, talvez essa seja outra forma de resistência: rir quando a vida decide colocar mais uma pedra no caminho e continuar caminhando mesmo assim.

Quando a família finalmente chega ao concurso, tudo aquilo que parecia ser sobre vitória muda de significado. A apresentação de Olive poderia ser vista como um desastre, especialmente porque ela não corresponde ao padrão esperado pelo concurso. Entretanto, Pequena Miss Sunshine entende que existe uma diferença entre passar vergonha sozinho e passar vergonha ao lado de pessoas que decidiram ficar com você. Quando Olive dança, a família escolhe entrar naquele palco metaforicamente com ela. Eles poderiam tentar impedir aquela situação, mas preferem protegê-la e abraçar sua liberdade. O resultado é engraçado, absurdo e emocionante justamente porque ninguém está mais preocupado com a opinião dos outros.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

É nesse momento que Pequena Miss Sunshine entrega sua ideia mais poderosa: talvez acreditar em si mesmo não signifique acreditar que você vai vencer. Significa acreditar que aquilo que você é merece existir, mesmo quando o mundo olha e decide que você não se encaixa. Olive não precisa se transformar em outra pessoa para merecer aquele momento. Ela simplesmente precisa continuar sendo aquela menina que queria dançar. A família, por sua vez, aprende a enxergar o valor disso. Meu caro Ornitorrinco, que bela ironia: o homem que queria ensinar todos a vencer acaba descobrindo que sua filha precisava apenas de alguém disposto a não deixá-la enfrentar o fracasso sozinha.

Por isso, a Kombi continua sendo uma imagem tão marcante. Ela está quebrada, mas continua andando; precisa de ajuda, faz barulho, atrasa a viagem e ameaça parar definitivamente, mas ainda consegue carregar aquelas pessoas. Pequena Miss Sunshine transforma esse veículo em um retrato da própria família, mostrando que imperfeição não significa inutilidade. Talvez uma família saudável não seja aquela em que tudo funciona perfeitamente, mas aquela em que, quando alguma coisa quebra, alguém aparece para empurrar.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

No final, Pequena Miss Sunshine não é apenas uma história sobre uma menina tentando vencer um concurso. É uma história sobre pessoas que descobriram, durante uma viagem caótica, que seus fracassos não precisavam separá-las. A Kombi não precisava ser consertada para cumprir sua função; precisava apenas continuar levando todos juntos. Da mesma forma, aquela família não precisava resolver todos os seus problemas antes de aprender a se amar.

Eles precisavam aceitar que ninguém ali era perfeito, que sonhos podem mudar e que perder não significa necessariamente fracassar. E talvez seja justamente por isso que essa história continue tão viva: porque, no fim, todos nós somos um pouco daquela Kombi, tentando chegar ao nosso destino enquanto alguém corre atrás para nos empurrar.

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Pequena Miss Sunshine / Focus Features

Lembrando que essa viagem de Kombi está disponível no catálogo do Disney+.

E esse foi “Aquele Desabafo”.

Te vejo no próximo post.

~ Cidadão Quem ~

Que tal relembrar com o trailer? Confira:

Que tal ler esse outro artigo: X-men 3 | Os fãs odeiam… Eu considero um dos melhores filmes!

By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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