Rua do Medo | A Trilogia de terror da Netflix que merece replay!

Rua do Medo | A Trilogia de terror que merece replay!

Eu tenho um vício incurável e, talvez, você também tenha: entrar na Netflix, ficar longos minutos procurando algo para ver e no fim não assistir NADA!!! Que coisa bizarra, não acha? Por isso, na última sexta-feira, abracei o seguinte ultimato: se em cinco minutos eu não escolhesse nada para assistir, deixaria a primeira sugestão do Google definir qual história passaria na minha TV. Dito e feito. Eu não escolhi nada, corri na aba de pesquisa e digitei “Netflix terror”. E adivinha? Apareceu uma sugestão de algo que assisti há 5 anos. A trilogia Rua do Medo. Acredite, meu caro ornitorrinco, foi muito “divertido”!

Nesse desabafo feito de palavras, opiniões sinceras e surtos, vou te lembrar como os três filmes merecem sua atenção de novo; ou, caso você nunca tenha apertado o play, vou te convencer a mergulhar nessa viagem no tempo; feita de referências, sustos e diversão macabra.

Rua do Medo: 1994 – Parte 1 é um tributo ao subgênero Slasher
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Netflix

Bebendo da fonte literária, lá em 2021, a Netflix adicionou na sua aba de “terror” as adaptações baseadas nas obras do autor R. L. Stine. Logo, o filme Rua do Medo: 1994, mostrou que seguiria as pegadas deixadas por Stranger Things, ou seja, uma narrativa dedicada às referências. Imprimindo o clima dos anos noventa, a parte 1 in(felizmente) veste todas as características de uma série: perguntas sem respostas, ausência de um final e uma prévia do que vem a seguir.

Se parecer com uma série não é um problema, mas será que a estrutura conseguiu sobreviver?

Na sétima arte, Wes Craven cravou seu nome na história cinematográfica ao quebrar fórmulas estabelecidas nos filmes de terror. Isso aconteceu em 1996 com a obra Pânico, também conhecido como o primeiro capítulo de uma franquia que falava sobre as regras do Slasher, homenageava clássicos e iniciava um diálogo auto-referencial. Vinte e cinco anos mais tarde, a polêmica cena de abertura, protagonizada por Drew Barrymore, é usada como matéria-prima para que Rua do Medo: 1994 inicia sua narrativa. Com isso, a Netflix presta tributo ao conjunto de filmes regidos pela figura do assassino mascarado que persegue suas vítimas. 

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Netflix

A parte 1 dessa trilogia aspira o passado do começo ao fim, e mesmo assim a trama respira sua própria identidade ao fundir ideias existentes em outros subgêneros do terror. Leigh Janiak, diretora, não esconde a admiração por histórias que possuem o intuito de assustar. Sua trajetória comprova isso, visto que no seu currículo tem a série Scream. Aqui, Janiak inaugura sua vitrine de homenagens em um evento cinematográfico que lançou um novo filme a cada semana com o objetivo de compor a trilogia.

A ascensão do Slasher levou roteiristas a reciclarem ideias que, com o passar dos anos, tornaram-se constante no subgênero: o uso desenfreado de estereótipos. O Bad Boy, a Líder de Torcida, o Nerd apaixonado e a Protagonista Puritana. Franquias como Sexta-Feira 13, por exemplo, reuniam diversas figuras que seguiam esses moldes; personagens rasos inseridos na trama apenas para aumentar a pilhas de corpos. 

Não existia arco de personagem para eles, o que levou o público, muitas vezes, a pagar o ingresso desejando, apenas, a presença do assassino. Por isso vilões como Jason, Freddy Krueger e Michael Myers assumiam as rédeas do protagonismo em seus filmes e, consequentemente, cada vez mais se repetia a fórmulas dos personagens estereotipados.

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Rua do medo / Netflix

Em Rua do Medo: 1994 essa construção formulaica acontece, mas a primeira impressão não é a que fica! A Líder de Torcida não é superficial, o Nerd não é enfadonho, tampouco tratado com desprezo; e a protagonista está apaixonada por outra garota, mas presa entre o amor e o ódio, culpa do preconceito e do medo de ser quem realmente é. E o Bad Boy? Bom, aqui ele ainda é só um Bad Boy! Por outro lado, o amigo tagarela, usado como alívio cômico, detém todo o carisma.

E esse grupo de adolescentes, antes de se transformarem em potenciais vítimas, são desenhados modestamente, desempenhando papéis que rompem a mesmice dos estereótipos.

É importante que o filme de terror idealize conexão entre o público e personagem, pois esse vínculo torna-se um importante artifício, potencializado nas cenas de tensão que joga os jovens em momentos de perigo. À vista disso, a diretora usa o primeiro ato com a finalidade de apresentar, sem pressa, os mocinhos. O elo construído por Janiak se escora nos elementos cenográficos para dizer um pouco mais sobre cada figura: uma carta, um computador, livros, TV e entre outros. 

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Rua do medo / Netflix

O deslize acontece na hora de situar o telespectador diante dos acontecimentos históricos que antecedem o ano de 1994. Nessa parte 1, a diretora perde a mão três vezes, transformando os protagonistas em fantoches; usando-os para vomitar uma sucessão de fatos. Isso soa repetitivo, dado que os créditos iniciais fornecem boa parte dessas informações. Todavia, essa sensação de “narrativa mastigada” não apaga os acertos.

Apesar dos minutos finais transformarem o longa-metragem em um “episódio estendido de uma série”, Rua do Medo: 1994 encerra bem a parte 1, oferecendo um resgate criativo de memória ligadas aos filmes de terror. A fusão entre terror Slasher e o terror sobrenatural resulta numa mitologia que desperta curiosidade. Algo que teria enfraquecido com o tempo, caso a espera pela Parte 2 e 3 durasse mais que sete dias. 

Na época, foi uma experiência inédita no streaming. Lançar três filmes sequenciais, em um curto período, se mostrou um baita acerto. Com certeza Rua do Medo: 1994 escreveu uma nova cartilha de lançamentos para as plataformas concorrentes copiarem. Em suma, o convite ofertado pela Netflix foi benéfico, pois não é todo dia que o público tem a chance de assistir uma trilogia que subtrai os meses de espera de um filme para o outro.

Rua do Medo: 1978 – Parte 2 resgata atmosfera de Sexta-feira 13

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Rua do Medo: 1978 – Parte 2 / Netflix

Semeando outra perspectiva para o tratamento de trilogias, a Netflix abriu as portas para uma continuação que gerou muito burburinho na semana de lançamento. Em Rua do Medo: 1978 – Parte 2 nada é aleatório, inclusive a data presente no título. Nota-se o cuidado, o planejamento em construir, através do calendário, coerência temporal e homenagem aos clássicos. Na história do gênero Slasher, foi nos anos setenta que os pioneiros O Massacre da Serra Elétrica e Halloween ditaram o manual que viria a ser seguido por outros filmes nas décadas seguintes. Portanto, nada mais simbólico do que situar a narrativa na exata década que marcou a gênese dos filmes slasher.

Nesse momentos, estou olhando para trás e resgatando uma frase sobre as “Regras de uma continuação” ditadas pelo incrível personagem Randy, de Pânico 2. Ele disse: “Regra 1: O número de mortes é sempre maior no segundo filme. Regra 2: As cenas de morte sempre são muito mais elaboradas, com mais sangue e violência. Regra 3: Nunca, sob qualquer circunstância, assuma que o assassino está morto”.

Mesmo com a distância de quase três décadas, essa análise metalinguística resume bem os riscos de Rua do Medo: 1978. Diferente do antecessor, a contagem de mortos é maior, o aprofundamento da mitologia segue ares mais míticos e o banho de sangue, frequente, às vezes precisa ser oculto pela fotografia escura. “Rebobinando a fita”, a narrativa volta no tempo, apostando na ambientação à lá Sexta-feira 13, mas seguindo diretrizes totalmente diferentes. Essa sequência cumpre seu papel de “filme do meio”, ligando a Parte 1 com a vindoura Parte 3 de forma orgânica. 

Rua do Medo | A Trilogia de terror da Netflix que merece replay!
Rua do medo / Netflix

Lançar uma trilogia, em menos de um mês, foi “coisa de streaming“, ou melhor, “coisa da Netflix”, e isso era inédito! Plantando na mente do público uma nova vivência cinematográfica, será que as demais plataformas investiriam nessa ideia em algum momento? Desde a estreia do filme primário, a Netflix não ofereceu apenas uma franquia de terror, e isso pode ser percebido em Rua do Medo: 1978. Desde os minutos iniciais, a sensação é que estamos segurando um convite, imersos numa festividade macabra, que une diversão e terror envelopados numa bagagem escrita “entretenimento macabro”. 

Na prática, o fator medo ganha destaque na Parte 2, e o resultado é como um bônus. Aperta-se o play num filme slasher sobre adolescentes na década de noventa, e agora o público é presenteado com uma faixa extra, focado no terror setentista. Portanto, a Parte 2 vem para confirmar o óbvio: trata-se de um evento, uma experiência diferente. No cinema, por exemplo, as trilogias costumam acontecer em um longo período, mas aqui é diferente. Estamos diante de uma tríade fílmica que se completou em três semanas. Não houve tempo para a contagem de dias, respiro narrativo ou especulação dos fãs, pois as respostas chegaram sete dias depois!

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Rua do medo / Netflix

Respondendo às indagações a conta-gotas, a trama prefere desenvolver um filme [dentro do filme] com começo, meio e fim. Diferente do precursor, a Parte 2 detém a aparência de trama “completa”, não parecendo, por exemplo, uma série. Mesmo que o prólogo e o desfecho desse filme possuam ramificações com a Parte 1 e a futura Parte 3, percebe-se uma história autônoma em Rua do Medo: 1978. Há mais liberdade na conclusão dos arcos de personagens e a dinâmica ação x reação independe da influência dos outros filmes.

Tal emancipação permite que a diretora, Leigh Janiak, mais uma vez, as amarras dos estereótipos, porque esse fragmento da história, apesar de “fechado”, presta reverências às construções de personagens presentes nos slashers de décadas atrás. Dentro dessa legião de potenciais vítimas, a apresentação vai se transformando em aprofundamento, humanizando os personagens que, inicialmente, parecem rotulados, e no prosseguir dos acontecimentos se tornam coadjuvantes fortes.

No final, a conclusão desse “filme dentro do filme” responde diversas perguntas, no entanto, deixa mais interrogações cintilando pelo caminho. E o que poderia ser defeito, aqui se transforma em engajamento. A audiência anseia compreender a origens, os segredos e as regras da maldição. 

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Rua do medo / Netflix

Desenterrando mistérios e apostando nas relações — amizade, inimizade, amor e irmandade — o segundo filme se sustenta sozinho e isso é uma característica merecedora de exaltação. Apesar de ser o miolo de uma massa maior, a Netflix prova que alguns elementos intrinsecamente ligados às séries cabem na construção de longas-metragens. Ou seja, trata-se de uma série disfarçada de filme? Não! Pois, o conjunto da obra se prova competente. O fator medo, crucial, é usado com inteligência. O sobrenatural ganha protagonismo, roubando a cena num terceiro ato claustrofóbico e, em alguns momentos, dramático.

No fim, fica na boca o gosto de “quero mais”, cutucado por uma prévia da vindoura Parte 3, que promete resgatar outro gênero do terror. Enfim, Rua do Medo: 1978 é uma sequência que sabe caminhar com as próprias pernas, mantendo-se no mesmo nível que o longa primário, mas alguns degraus acima no quesito qualidade.

Rua do Medo: 1666 – Parte 3 encerra a trilogia transformando verdades em mentiras

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Isso aqui foi história! Foi evento! Foi a Netflix colocando todos os pingos nos “is” (ou quase!). Rua do Medo: 1666 – Parte 3 replica o mesmo comportamento do original, com trejeitos de série. E assim como o filme progenitor, a conclusão faz dessa característica sua força, revelando que o melhor foi guardado para o final, nesse caso “finais”, no plural, pois estamos diante de uma “dobradinha” — um filme “dois em um”.

“Como encerrar uma trilogia?”. Essa pergunta matou (e salvou) inúmeras franquias. Para a diretora de Rua do Medo, Leigh Janiak, basta entrar no túnel do tempo e dissecar o passado, assim como em Pânico 3. Alinhando o enredo numa longínqua vila de peregrinos, a Parte 3 realoca os atores em outros papéis, cercando-os de segredos, reviravoltas e mais mortes. Optando pela exploração comportamental, Janiak segura as rédeas da trama com firmeza, apostando no contraste existente entre a vida do indivíduo x a vida em comunidade. Em outras palavras, eis o terror que visa estudar a anatomia da conduta humana. 

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Rua do medo / Netflix

O resultado é o filme mais importante da trilogia, desafiando o público a desembaralhar os pedaços de pistas deixadas pelo caminho. Às vezes aparentando ser o episódio final de série, a atmosfera lapidada flerta com o taciturno A Bruxa, de Robert Eggers; e para bom entendedor, tal elogio já basta!

A ponte criada no final da Parte 2, torna-se o gancho mais poderoso dentre os três filmes. Sussurrando no ouvido do público o convite para mergulhar na mitologia da principal figura sobrenatural, a bruxa Sarah Fier, o longa se desprende da identidade Slasher, agarrando-se no terror psicológico.

A fluidez é a melhor amiga do terceiro filme, pois em duas horas a trama consegue a proeza de destrinchar o passado e recuperar o dinamismo, retomando os acontecimentos de Rua do Medo: 1994. Tal dinâmica permite que o público seja agraciado com respiros narrativos, mais mistérios e uma sessão dupla.

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Os dias remotos em Rua do Medo 1666 são examinados na primeira hora de filme. Se observa os costumes do povo regido pela fé (ou o medo produzido por esta), o fanatismo religioso e a manipulação da verdade. Esse recorte no tempo abre parênteses para uma discussão antiga, porém atual! Sabe-se que o comportamento humano, muitas vezes, leva a reprodução de atos sombrios. É isso que a diretora mostra: a vertente cruel, habitante cada ser, seja pai, mãe, irmão, vizinho ou amigo.

Com a fotografia cinzenta, diferente da paleta de cores neon predominantes na Parte 1 e 2, Rua do Medo: 1666 se apega aos cenários, extraindo o máximo de bizarrices rotineiras com a missão de passar para o público a atmosfera pesada. Parece que estamos diante de uma visão que não nos pertence, mesmo assim precisamos vê-la, senti-la! Dessa experiência, nasce os embates na tela. Fé e descrença, medo e esperança, amor e ódio, verdade e mentira. Afinal, quem vence? Essa são as indagações que Janiak se propõe a responder (e discutir).

Com isso, ela une os demais filmes a este em uma grande teia de acontecimentos que culminam no mesmo ponto: Quem, de fato, foi Sarah Fier? Eis a questão, o ponto-chave da trilogia. Quando as respostas surgem, a edição encerra a primeira parte do fim de forma crua, pessimista. A retomada do ponto de partida — período “noventista” — trabalha com as consequências e tomadas de ações, uma vez que a gênese da maldição foi descoberta.

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Se as duas primeiras partes da trilogia serviram como ode ao cinema de terror, indo de Pânico a Sexta-feira 13, aqui a diretora pinta homenagens a tramas como A Bruxa, A Vila, entre outros. Apesar da enxurrada de inspirações, a Parte 3 conta a própria história, sem jamais usar as referências como escada para chegar em sua linha de chegada. Repleto de simbologias, antigas e atuais, é na essência dos personagens, nas escolhas e relações deles que habita o coração dessa fita de terror. Não há grandes sustos ou doses de megalomania, usa-se a simplicidade do cotidiano dos peregrinos para desenrolar os conflitos e plantar uma semente para o mau.

Temos aqui o encerramento justo, respeitando a construção dos filmes anteriores. Apesar dos deslizes que acometem o roteiro vez ou outra, nenhum deles atua como sabotador. Permanece, no fim, a famosa sensação de “jornada concluída”, apesar das “reticências”…

Ao desafiar o público a embarcar nesse experimento fílmico, a Netflix assinou seu nome em uma nova receita para os streamings: trilogias com filmes lançados a cada semana.

Nessa parte 3, o fechar das cortinas foi marcado por dosar drama, terror e humor, atestando este como o melhor filme da saga. Portanto, Rua do medo: 1666 finaliza sua passeata com energia, mostrando que o desfecho — ainda — é o melhor lugar para grandes revelações.

E esse foi Aquele Desabafo-sugestão! Até a próxima.

~ Cidadão Quem? ~

Que tal relembrar o trailer?

Fã de anime ou não, você precisa clicar AQUI e conhecer essa história!

By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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