Quando o assunto são os filmes de super-heróis, muitos lembram da icônica cena inicial de Batman: O Cavaleiro das Trevas, filme lançado em 2008. No entanto, cinco anos antes, Bryan Singer ousou ao extrapolar os limites da ação na abertura para o segundo capítulo do filme dos mutantes, em X-Men 2.
Há um elemento que cabe em qualquer gênero cinematográfico, a “curiosidade”. Terror, ação, drama e outras vertentes do cinema possuem espaço para a criação de uma atmosfera densa, lapidada pela expectativa. Enquanto o público fica na beira da poltrona, ansioso, o filme injeta tensão e doses de mistério. A primeira cena, fala ou som, quando combinados em perfeita sintonia, são capazes de atrair a atenção das pessoas como um ímã. Portanto, o princípio de uma história é o contato mais importante com o espectador.
O começo de Titanic, por exemplo, leva o público a se perguntar: o que estão procurando nos destroços do navio? Matrix desperta diversas indagações acerca de Trinity e O Show de Truman usa a imagem para brincar com o nosso interesse. Todas essas cenas despertam curiosidade por um motivo bem simples: elas criam pontos de interrogação na nossa cabeça. É isso o que acontece nos cinco minutos e dezessete segundos iniciais de X-Men 2.

No começo do segundo filme dos mutantes, nossa curiosidade é alimentada a cada frame. Não sabemos o que está acontecendo, não sabemos quem está conduzindo o ataque (até certo ponto), não entendemos as motivações e tampouco compreendemos o contexto. Nossa atenção é usurpada para dentro da cena porque o xeque-mate já foi dado: estamos entregues ao filme.
E existe uma razão para essa sensação de estarmos completamente perdidos funcionar tão bem. Bryan Singer não entrega Noturno de bandeja ao espectador. Primeiro, apresenta seus movimentos, seus poderes e sua capacidade destrutiva; somente depois permite que compreendamos quem está por trás daquela figura azul que atravessa paredes e corredores como se as leis da física fossem apenas uma sugestão. A identidade do invasor se torna um pequeno mistério, e a resposta vem acompanhada de uma recompensa visual.
A escolha do local também não poderia ser mais simbólica. A Casa Branca, um dos maiores símbolos do poder político dos Estados Unidos, transforma-se em um labirinto tomado pelo caos. Não estamos diante de um vilão invadindo um depósito abandonado ou uma instalação qualquer. O alvo é o centro do poder presidencial, protegido por dezenas de homens e cercado por protocolos de segurança. A sensação de vulnerabilidade, portanto, nasce justamente do contraste entre a imponência do lugar e a facilidade com que Noturno consegue atravessá-lo.

E há outro detalhe que torna tudo ainda mais interessante: a sequência praticamente não precisa explicar o que está acontecendo. O filme confia na imagem. Vemos o personagem desaparecer em uma nuvem de fumaça, reaparecer metros adiante, derrubar um segurança e continuar avançando. Cada teletransporte funciona como uma nova quebra de expectativa. Quando pensamos ter entendido a lógica daquele ataque, Singer muda novamente a posição do personagem e nos obriga a acompanhar a ação no mesmo ritmo frenético de quem está tentando sobreviver a ela.
É justamente nesse ponto que a abertura deixa de ser apenas uma grande cena de ação e passa a cumprir uma função narrativa. Noturno não está ali somente para impressionar o público durante alguns minutos. Sua invasão antecipa um dos principais conflitos de X-Men 2: o medo que os humanos possuem dos mutantes e a forma como esse temor pode ser utilizado politicamente. Antes mesmo de o filme apresentar todas as suas peças, a sequência já coloca uma pergunta desconfortável sobre a mesa: até onde uma sociedade estaria disposta a ir para se proteger daqueles que considera uma ameaça?

E o que configura a abertura de X-Men 2 como um marco na história dos filmes de heróis? Existem quatro pontos-chave que tornam esse começo um “abre-alas” histórico: a curiosidade (já citada), a trilha sonora, a coreografia e a presença de poucos diálogos.
Não é de hoje que a 1ª e a 7ª Arte se encontram para compor uma mistura sonora e visual difícil de esquecer. Passaríamos dias contabilizando a quantidade de trilhas sonoras do cinema que são embaladas por músicas clássicas. A sonoridade de Mozart atravessou as barreiras do tempo, e “Dies Irae”, trecho de seu Requiem, foi uma escolha de mestre que adicionou ainda mais potência à abertura de X-Men 2.
Basta uma rápida espiada na letra da composição e podemos traçar algumas semelhanças com a cena: “Dias de ira, aquele dia. Em que o mundo se dissolverá em cinzas, como predito por Davi com Sibila. Como é grande o terror que está para vir. Quando o juiz vier para julgar todas as coisas severamente.”

Uma cena de luta, antes de tudo, é como uma dança. Todos os passos precisam ser milimetricamente estudados e decorados para que o confronto transpareça verdade, força e outras emoções ligadas às cenas de ação. Esse conjunto é levado como um lema e a equipe técnica responsável pela coreografia do filme ousou ao apostar em acrobacias e golpes aéreos. A gravidade não estava na equação e o resultado foi o personagem Noturno mostrando todo o perigo em potencial ao usar seus dons como “teleportador”.
A presença de poucos diálogos também é um fator determinante. A única frase que apresenta um contexto que será subvertido está na fala do “Guia da Casa Branca” ao replicar o discurso de Abraham Lincoln: “Não somos inimigos, somos amigos”. Uma clara alusão ao conflito Humanos X Mutantes. Os demais personagens secundários estão ali para adicionar mais à camada contextual, como o grupo de seguranças gritando comandos que alavancam a ansiedade causada pelo risco iminente.

Alan Cumming, o ator por trás da maquiagem e da performance convincente, precisou apenas de um sibilo animalesco para ditar o tom da sua presença em cena.
No encerramento da abertura, uma mensagem poderosa, que se fortalecerá durante todo o filme, está escrita no objeto que por pouco não tirou a vida do Presidente dos Estados Unidos: “Liberdade já para os mutantes”.
Em suma, o pai de todas as pesquisas, vulgo Google, pode levar você a infinitas listas que enumeram as melhores cenas de aberturas dos filmes. Talvez você encontre algo citando 2001: Uma Odisséia no Espaço, Halloween: A Noite do Terror ou Up: Altas Aventuras. Existem divergências, de fato, mas a cena de X-Men 2 fez por merecer seu local nesse rol de aberturas emblemáticas do cinema.
Assista a cena de X-men 2:
Lembrando que X-men 2 está disponível no catálogo do Disney+.
Se ainda não sabe o que assistir no final de semana, que tal conhecer essa trilogia AQUI da Netflix?

