Castlevania | 4 Motivos para ver a série épica da Netflix

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Em 2017,  a Netflix abriu uma porta para a escuridão. Das sombras, renasceu um dos jogos mais aclamados da empresa Konami — Castlevania. Deixando os consoles e migrando para o streaming, a série animada adaptou a trajetória dos “games” seguindo os passos do caçador de monstros, Trevor Belmont. Após quatro ciclos, a jornada se tornou uma recompensa para os fãs, transpondo o horror visual e a ação frenética presente no material de origem.

“Coragem” é a primeira palavra que vem à minha mente quando descubro que uma franquia de jogos ganhará vida no cinema ou através de série na TV; acredito que os idealizadores de uma adaptação precisam ser corajosos, antes de qualquer coisa! Na época do anúncio da adaptação do game, a notícia tomou conta das redes sociais, despertando uma expectativa, tanto positiva, quanto negativa.

Por isso, é comum observar rostos franzidos e sobrancelhas arqueadas quando uma manchete no mundo do entretenimento anuncia uma adaptação audiovisual de “games”. Essa reação é uma resposta automática dos fãs, pois nos últimos anos eles tiveram que engolir, a contragosto, versões cinematográficas que não respeitavam a fonte primária.

Castlevania - 4 Motivos para ver a série épica da Netflix
Castlevania / Netflix

Nos cinemas, Resident Evil fez bilheteria, mas conquistou uma parcela ínfima de apreciadores dos jogos. Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos, longa baseado no clássico dos MMORPGs, também deslizou no abismo, despertando apenas a insatisfação dos “gamers”. Sem contar o infame Street Fighter – A última batalha e o bizarro Super Mario Bros.Em contrapartida, Sonic – O filme, Terror em Silent Hill e Príncipe da Pérsia: As areias do tempo são exemplos das poucas adaptações que conseguiram se sobressair, entregando algo aceitável.

Livros, jogos e HQs. Afinal, todas as adaptações precisam ser fiéis? Esse é um debate que está impregnado na essência da Cultura Pop, e até hoje não há uma resposta unânime. Assim como existem exemplos que desagradaram a audiência, o oposto também está por aí. Na prática, o que faz uma releitura ser um projeto bem sucedido é a qualidade narrativa, a assinatura criativa combinada entre roteirista e diretor e uma representação que respeite o personagem existente em outra mídia. Esse é o combo de acertos que Warren Ellis fez na série de Castlevania.

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Castlevania / Netflix

1 – O roteiro afiado e sangrento da série

Warren Ellis, escritor de quadrinhos (já trabalhou para DC e Marvel), conduz o roteiro da série com muita originalidade. Nada de vampiros superficiais, heróis bondosos e tramas fáceis. A medida que a história avança, o cenário torna-se mais caótico, com profundas reviravoltas e diálogos filosóficos.

Basta um minuto para que o público compre essa ideia, incentivados pelos monólogos bem arquitetados que desbravam o passado, a ambição e a tese trabalhada nos coadjuvantes. Esse cuidado especial vai na contramão de outras produções que tratam tais figuras apenas como suporte narrativo. Entretanto, em Castlevania, todos as peças usufruem o poder de movimentar a história para frente; aqui os peões também são reis, decidindo o destino nesse tabuleiro sangrento.

2 – Ambientação gótica e construção de mundo

A ambientação medieval eleva o enredo, com cenários que não são apenas um “pano de fundo” na série. O comportamento dos civis, em um período sombrio, representa o lado mais obscuro do homem. Indo além, o texto coloca em evidência a hipocrisia religiosa e seu domínio cruel, como determinar que algumas mulheres eram “bruxas” e a repulsa pela ciência, resumida a bruxaria.

Não é apenas o misterioso castelo de Drácula que possui suas particularidades, Valáquia, muitas vezes, é mais sombria que as criaturas demoníacas que invadem o local.

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Castlevania / Netflix

3 – As temporadas e a jornada rumo a escuridão

Quando terminei a primeira temporada da série, o sentimento que dominou minha mente foi “revolta”. Isso serve como uma insatisfação e um elogio. Com apenas 4 episódios, a temporada inaugural de Castlevania é uma apresentação dos personagens centrais da trama; em outra palavras, é como se o primeiro ano da animação fosse em prólogo. Sem pressa, cada episódio se concentra em mostrar os protagonistas e O Grande Antagonista.

No final, fica aquela sensação de “como assim, já acabou?!“. É nítido o perfil introdutório da temporada 1, motivando nossa ânsia em descobrir os rumos que a história tomará. Na mesma proporção, a impressão que fica é que a animação foi “cortada” pela metade, e que os episódios foram remanejados para a temporada seguinte.

Sem mais delongas, a 2ª temporada de Castlevania é a mais promissora. Isso se deve ao excelente desenvolvimento da mitologia daquele mundo sombrio, enquanto o roteiro adiciona personagens secundários interessantes, como Carmilla e os dois humanos: Isaac e Hector. Surgem, também, os generais de Drácula, apesar de alguns ficarem nas sombras e nem sequer falar um “a“.

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Castlevania / Netflix

Enquanto o trio Alucard, Trevor e Sypha arquitetam um plano para derrotar o vilão, a história ganha mais forma do outro lado, com alianças, traições e manipulações políticas. A evolução de Drácula é regida pelo Luto; esse é o pior inimigo dele, afinal, lidar com a morte de sua mulher e enfrentar o “seguir adiante” não são tarefas fáceis para um imortal. Com incríveis batalhas, o segundo ano da animação detém os melhores arcos narrativos. O desfecho, no entanto, deixa algumas pontas soltas, que nos catapultam para o terceiro ano da série.

Dando mais tempo de tela para personagens secundários, e assumindo as rédeas criativas, ao criar conteúdo além do material original, a 3ª temporada da série possui um ritmo mais lento, com pouca ação e mais dramas. Acompanhamos o novo capítulo dos protagonistas, agora separados, enquanto vampiros e humanos ganham força para desafiar a ordem natural das coisas.

A temporada final de Castlevania é uma experiência que une a imersão dos jogos com o poder narrativo de uma série. Diversas cenas simulam o enquadramento dos “games”, como se o público estivesse usando um “joystick invisível”, movimentando os personagens nas cenas de batalha. A movimentação giratória e a perspectiva visual durante o confronto final é similar ao clima de títulos como God of War e Shadow of the Colossus.

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Castlevania / Netflix

Para a Netflix, esse “game over” é o “start” para futuras adaptações de games. A princípio, pode soar prematuro o encerramento da série em seu 4º ano. Todavia, é preciso ter muito tato para colocar um ponto final em uma história. E o criador Warren Ellis escolheu o momento certo, transformando Castlevania em um épico gótico.

4 – Personagens cinzentos e complexos

Sem medo de abraçar o lado “gore“, Warren consegue representar a fome vampiresca na sua forma mais bruta: sangue, vísceras, mutilações e qualquer outra coisa que possa embrulhar o estômago. O grande triunfo do roteirista é valorizar as subtramas, através de personagens coadjuvantes que crescem ao longo da série. Isso é visto nos primeiros episódios, quando Lisa, a mulher de Drácula, ganha mais tempo em tela, do que nos jogos. Ela não é apenas a “motivação do vilão”, ela é uma personagem que sintetiza a esperança humana, mostrando que até nos monstros mais poderosos existe “bondade“.

Trevor Belmont é aquele personagem carrancudo e boca suja que conquista nossa empatia logo de cara. Um especialista em combate com armas, ele eleva o nível de dificuldade para os inimigos toda vez que entra no campo de batalha. Seu arco de personagem é uma bomba relógio: nunca sabemos se ele vai explodir ou se as coisas ao redor dele vão. De fato, ele é um ímã para o caos. Ora herói, ora anti-herói, afinal o que pesa mais? Existe uma balança interna no Belmont, oscilando constantemente. Assumir um manto é a grande pergunta na última fase, e caberá aos episódios finais concederem uma resposta definitiva.

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Série: Castlevania / Netflix

Já Alucard (nome “espelhado” em seu pai) chega nos 45 do segundo tempo, mostrando que classe e etiqueta podem ser visíveis em um combate! Ele é um ser híbrido, filho de Drácula e Lisa. Além disso, Alucard é como uma fênix renascendo das cinzas. Depois de passar alguns episódios perdido, principalmente numa terceira temporada que o deixou de “escanteio”, ele recupera o fôlego, tomando as rédeas de um protagonista. Sob uma narrativa que o insere no centro de uma batalha, quase como um salvador divino, o filho do Drácula precisa lutar, física e mentalmente, contra seus inimigos e os fantasmas que sussurram em sua cabeça.

O senso de justiça e a vontade de perseverar são os atributos que nutrem a força de Sypha. Canalizando esse dom graças ao diálogo, a personagem cresce episódio após episódio. Suas escolhas e questionamentos são fortes como um discurso. Aliás, todas às vezes que Sypha movimenta as mãos, conjurando elementos da natureza, a animação se transforma em uma explosão de cores e movimentos. A fluidez utilizada para animar os dons dela é um deleite visual. Água, gelo, fogo e sangue — essa é a fórmula que nunca perde o efeito de impressionar.

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Série: Castlevania / Netflix

Expandindo o mundo além do material original e mantendo a qualidade, Castlevania é uma porta aberta para as adaptações de games, que muitas vezes ficam à mercê de filmes que decepcionaram. Se você ainda não conhece esse mundo sombrio, cercado de criaturas infernais, corre e “maratone”, vale cada segundo.

Enfim, Castlevania é muito mais que uma história de vampiros, é uma representação da linha tênue que separa homens e monstros.

Que tal espiar o trailer da série e ter um vislumbre desse épico gótico?

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By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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