Misterioso e brutal, Parasita foi o melhor filme de 2019

Misterioso e brutal, Parasita foi o melhor filme de 2019
A desigualdade social é um tema recorrente no cinema. Longas-metragens mais antigos, como Titanic de James Cameron, ou até obras mais recentes, como Nós de Jordan Peele, fizeram uso dessa discussão. Além de ser o melhor filme de 2019, talvez o melhor da década de 2010, Parasita disseca esse fato social de forma brilhante e sombria. Com um roteiro ousado, que abraça a imprevisibilidade, a trama mergulha o telespectador numa história tão visceral e cheia de reviravoltas que é impossível assistir apenas uma vez.

Não é fácil apresentar uma nova visão sobre as diferenças entre as classes sociais. Tal como, não é qualquer filme que possui a engenhosidade de entregar um subtexto capaz de fazer o público refletir por um longo período, após os créditos finais. Mas, existe um diretor sul-coreano, chamado Bong Joon-ho, que ousou e acertou, ao apostar nessa temática. O cineasta entrega uma nova roupagem desse assunto, enquanto leva seu público do riso ao choque em questões de segundos.

Não se espante, se em algum momento do filme você sentir vontade de gargalhar com as situações bizarras. Assim como, colocar as mãos na boca, abafando um grito de agonia. Parasita é um filme que consegue transitar entre o humor, o drama e o suspense, respeitando cada um desses gêneros, usufruindo das oportunidades narrativas. Essa é a grande eficiência do roteiro, amarrando toda a trama sobre estes gêneros, sem deixar o filme parecendo um monstro de Frankenstein. Repleto de reviravoltas, a história segue um caminho imprevisível, rendendo momentos marcantes.

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Parasita / NEON CJ Entertainment

Outro grande acerto do filme é a direção de arte. Os cenários não são apenas um mero pano de fundo; tudo em tela possui uma grande relação com a premissa do filme, pois as casas e os móveis sempre fazem alusão ao tabu riqueza x pobreza. E nem é preciso ter um olhar criterioso, pois o contraste salta na tela, quase como um grito.

Contribuindo com esse acerto está a fotografia, que sabe muito bem como captar a essência de cada um destes ambientes, seja no porão da família pobre, ou na mansão da família rica, ou nas ruas que conectam esses pólos opostos.

Bong Joon-ho já dirigiu filmes excelentes, como o Expresso do Amanhã, O Hospedeiro e Okja (disponível na Netflix). O trabalho de direção feito por ele é detalhista, magistral e peculiar. Ele domina muito bem o ritmo da narrativa, sem deixar que o filme “morra” em momentos desnecessários.

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Parasita / NEON CJ Entertainment

Joon-ho, além de dirigir a película, roteirizou o filme ao lado de Han Jin-won. Um dos méritos do roteiro é a sátira social presente nos diálogos. Logo de cara, os personagens estão fazendo algo que todos nós já fizemos alguma vez na vida. E, ao longo da projeção, podemos reconhecer algumas situações do nosso dia a dia. O roteiro entende as oportunidades que o tema oferece, criando uma narrativa que ascende rumo ao clímax, que cá entre nós, é inesquecível, chocante, e qualquer outro adjetivo que seja sinônimo de surpreendente.

A trilha sonora consegue caminhar de mãos dadas com o roteiro, sendo encaixada nos momentos certos e de forma coesa com a proposta do longa. Todo o conjunto sonoro do filme respeita a atmosfera híbrida, seja nas cenas cômicas, nos momentos repletos de mistérios, ou em partes dramáticas. Pontual, a trilha sonora é quase um personagem dentro da história.

Choi Woo-shik, que interpreta Ki-Woo, o filho da família pobre, é o primeiro parasita que conhecemos. O ator consegue entender essa junção de gêneros no roteiro, construindo um personagem que vai crescendo ao longo do filme.

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Parasita / NEON CJ Entertainment

Song Kang-ho (o pai da família pobre) é o grande destaque do filme. Com cenas desconfortáveis, que sempre colocam seu personagem em situações bizarras, o ator consegue ir do ponto A ao ponto B, e depois para o ponto Z, sem descaracterizar a evolução do personagem. A riqueza na interpretação corporal e facial do ator nos dá toda a compreensão das atitudes dele.

Park So-dam, que interpreta a filha da família parasita, incorpora muito bem os dois lados da moeda presente em sua personagem. A personalidade de fachada e a personalidade verdadeira tornam o papel dela difícil, mas ela tira isso de letra, convencendo até mesmo nós que sabemos de toda a verdade. Todo o elenco do filme é majestoso, e merecem nossa aclamação. Alguns com mais tempo em tela, outros com menos, mas de uma forma geral, o cast é excelente.

Se você pesquisar o significado da palavra parasita, encontrará dois resultados. No ramo da biologia, o conceito desse termo é “diz-se de ou organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano“. Outro significado dessa palavra é “diz-se de um indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça “. Acredito que seja o suficiente para você captar no ar o que o filme abordará. Mas, acredite, por mais que você pense que saiba o rumo que a história tomará, você jamais chegará perto de prever o desfecho.

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Parasita / NEON CJ Entertainment

Fuja de qualquer spoiler! Pois a surpresa é elemento fundamental na hora de assistir.

Oscar 2020 – Parasita fez história, levando 4 estatuetas para casa!

Na noite de 9 de fevereiro de 2020, no finzinho do domingo e com aquela tristeza “pré-segunda-feira”, o mundo do cinema se transformou. Na época, o ceticismo fez muitas pessoas acreditarem que a Academia fosse condecorar 1917 como o Melhor filme. Para a alegria e o choque de muitos, o Oscar de Melhor Filme Internacional não foi o último degrau alcançado por Parasita, que minutos depois alcançou o topo, levando a estatueta mais importante da noite. Foi a partir daí que aqueles que nunca ouviram um mísero sussurro sobre o filme, voltaram seus olhos para o ganhador do Oscar de Melhor filme.

O que faz de Parasita um filme tão poderoso?

Duas famílias separadas pela diferença de classes sociais, se encontram, após uma sucessão de “acontecimentos”. Acontecimentos entre aspas, se é que você me entende! As consequências não tardam a chegar, porém o “Sr. Plot Twist” decide gargalhar na cara dos personagens; e, é aqui, que o caos ganha força e tudo sai do controle. (Me desculpem, mas dar spoilers seria um crime!).

A primeira coisa que você faz, após terminar de assistir Parasita é respirar, soltando o ar que você estava prendendo. A tensão que o longa-metragem cria em tela é assustadora, divertida, dramática e misteriosa. Com um roteiro que brinca com a nossa percepção, nos fazendo acreditar, depois desacreditar e por fim acreditar novamente no que pode ou não acontecer; fatores que tornam a experiência única.

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Parasita / NEON CJ Entertainment

A barreira do “Filme estrangeiro”

Muitos pensaram que Parasita fosse sofrer o mesmo golpe de Roma — filme estrangeiro filme lançado em 2018, dirigido por Alfonso Cuarón —, e felizmente isso não aconteceu. Assim como em seu filme, Bong Joon-ho assistiu a grande reviravolta da noite: a consagração de seu trabalho como o melhor de 2019. Sorridente, humilde e com discursos poderosos, Joon-ho subiu ao palco quatro vezes, reconhecendo o trabalho dos demais cineastas, o que rendeu um dos momentos mais genuínos da noite, uma salva de palmas para o veterano Martin Scorsese

“Depois de ganhar como melhor filme internacional, eu achei que já tinha acabado, que já estava pronto para relaxar. Quando eu era jovem, dizia-se um ditado ‘o que é mais pessoal, é mais criativo‘. Essa citação é do Martin Scorsese“ — disse Bon Joon-ho, na noite de ontem.

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Bong Joon-ho no Oscar 2020

Em suma, a força de Parasita está na sua originalidade, está em suas raízes Sul-coreanas, está em um filme feito na língua original, está no primoroso elenco e no grande diretor e, acima de tudo, está na façanha que poucos filmes conseguem: grudar na nossa mente como um parasita e permanecer lá por muito tempo.

Se você chegou até aqui e ainda não viu essa Experiência “Absolute Cinema”, assista ao trailer:

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By Cidadão Quem?

Escrevo sobre filmes de terror, revisito clássicos e desconfio de qualquer série que prometa 20 temporadas. Tenho mais coragem para encarar um filme de terror às 3 da manhã do que para subir numa bicicleta. Sou fã declarado de Tarantino, porque aparentemente gostar de Tarantino ainda é permitido no mundo dos cinéfilos. Entre um susto, uma reprise e uma crise existencial, sigo procurando o próximo filme que merece ser chamado de “aquele filme lá”.

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