Esse é um Desabafo diferente, meu caro Ornitorrinco! Nem tudo são flores, assim como nem tudo são espinhos… E hoje, 11 de setembro, apesar dos apesares, lembrei que, há seis anos, um filme particularmente especial bateu à minha porta. E eu o abracei!
Nomadland não é só um filme. É uma coisa. Uma experiência. Um amontado de sentimentos que vivem dentro da tela…

O mundo é maior do que imaginamos. Dentro da bolha em que residimos, nosso campo de visão não alcança todas as pessoas e suas diferentes experiências de vida. Então, um “viva ao cinema!” por oferecer esse alcance, pois, sem a 7ª arte, não existiriam filmes como Nomadland, que pega na nossa mão, conduzindo-nos para uma viagem.
Comentar sobre o Oscar nos leva a falar sobre filmes, que, por sua vez, nos leva a falar dos diretores. Diretores nos fazem pensar em Oscar. E tudo se repete em um ciclo vicioso, que pode variar de pessoa para pessoa. Creio que os mais velhos, exploradores da extinta rede social chamada “Orkut”, se lembrarão do seguinte bordão: “O que falar dessa pessoa que mal conheço e já considero ‘pakas’?“. Pois bem, essa é a melhor forma de apresentar Chloé Zhao! Ela foi a responsável pelo [amado? Odiado?] Eternos, filme que apresentou a equipe “deuses heróis” da Marvel.

Agora que temos o contexto, vamos ao filme. De acordo com o dicionário, a palavra “lar” significa “a casa de habitação; domicílio familiar”. Mas a vida não é tão reduzida assim, e tal conceito pode não se aplicar a todos. “Lar” pode ser subjetivo para alguns. É isso o que Nomadland retrata: a vida dos nômades do século 21. Pessoas cujo lar está sobre quatro rodas, viajando em busca de “bicos” (empregos esporádicos). Fern, interpretada por Frances McDormand, é a protagonista que não é representada pelo significado de lar que está no dicionário. Ela é a nossa carona para uma jornada sem destino. Aqui, o propósito é o Agora e as pessoas que estão ao redor.
Mas o que de tão especial há em Nomadland? Será a fotografia, que parece um conjunto de quadros? A montagem paciente? As atuações? Quem sabe, a temática? Muitos pontos de interrogação, eu sei. Pode ser tudo isso, sim. Talvez outros aspectos mais “pessoais”. No entanto, uma coisa é certa: Nomadland é uma grande viagem, literal e metaforicamente. Impossível não se encantar pela beleza natural das estradas. Uma montanha, uma onda, árvores e outros produtos da natureza. É aqui que entram as imagens.

Se tem algo que está na ponta da língua dos brasileiros são os ditados populares. A maioria cresceu cercada por ensinamentos condensados em poucas palavras. Hoje, a pessoa em questão não reside no Brasil. Mas sua obra cinematográfica é um conjunto de imagens que valem mil palavras. Chloé Zhao fala muito com pouco, expõe um contexto socioeconômico e cultural sem parecer que está “panfletando”. É a arte da sutileza.
O diretor de fotografia Joshua James Richards também merece os aplausos pelo seu retrato poético. Basicamente, o que ele faz são pinturas. A única diferença é que faz isso sem usar tinta, quadro ou pincel. Sua ferramenta é a lente de uma câmera.

Mas voltamos para a pessoa que está no título deste artigo, Chloé Zhao. Ela faz tudo! E, quando eu digo “tudo”, é tudo mesmo! Ela dirigiu, roteirizou, produziu e trabalhou na montagem de Nomadland. Ufa! Isso sim é trabalho autoral.
Ouso dizer que Zhao é “gente como a gente“. Sorridente, simpática e tímida com as próprias conquistas. Basta rever suas reações ao conquistar o Globo de Ouro e o Critic’s Choice Awards. Mas, acima disso, essa característica se reflete no trabalho dela, pois Nomadland fala sobre pessoas sem jamais estereotipá-las, longe de julgar o estilo de vida que poucos conhecem.

Ah! Vale ressaltar mais uma justificativa para ver esse filme. Uma razão que dispensa explicações: Frances McDormand.
E talvez seja justamente através de Fern que Nomadland consiga ser tão íntimo. Ela não precisa discursar para explicar quem é. A personagem existe nos pequenos gestos, nos silêncios e nas conversas aparentemente banais. Existe uma certa liberdade em sua caminhada, mas também há um vazio que não precisa ser anunciado aos quatro ventos. Zhao entende que algumas dores não precisam de legenda.

É interessante perceber como a diretora transforma espaços enormes em lugares de intimidade. A van, que poderia ser apenas um meio de transporte, torna-se quarto, sala, cozinha e, principalmente, refúgio. As estradas deixam de representar somente deslocamento e passam a simbolizar uma existência que não encontra motivos para permanecer parada. Fern está sempre indo para algum lugar, mesmo quando parece não saber exatamente onde quer chegar.
Nesse percurso, o filme também encontra beleza na imperfeição. Não existe a preocupação em transformar cada personagem em alguém extraordinário aos olhos do mundo. São pessoas comuns, com histórias comuns, tentando sobreviver às circunstâncias que lhes foram apresentadas. Talvez seja justamente por isso que Nomadland consiga tocar tanto. Ele não olha para essas pessoas de cima para baixo. Caminha ao lado delas.

No fim das contas, talvez o filme não esteja interessado em responder onde fica o nosso lar. Talvez a pergunta seja outra: o que transforma um lugar em lar? Uma casa? Uma família? Memórias? Pessoas? Ou simplesmente a sensação de pertencimento? Nomadland não entrega uma resposta definitiva, e ainda bem. Algumas perguntas ficam maiores quando o filme termina. E talvez essa seja uma das maiores virtudes de Chloé Zhao: fazer o espectador viajar sem precisar sair do lugar.
E esse foi “Aquele Desabafo”.
Te vejo no próximo post.
~ Cidadão Quem ~


Assista ao MARAVILHOSO trailer:
Gostou desse desabafo? Que tal ler o que falei sobre The Boys bem AQUI!

